Alta do juro não acabou

juro_0_177_1536_1005O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central procurou transmitir a mensagem, em ata de sua ultima reunião, divulgada ontem, que os resultados no combate ao avanço de preços na economia são insuficientes e que ainda existe trabalho a ser feito pela política monetária. O mote da autoridade monetária é manter a “determinação” e “perseverança”. O Valor apurou que, na visão do BC, são “prematuras” discussões sobre um eventual corte na taxa básica de juros, num momento em que a sua avaliação é de que o cumprimento da meta de 4,5% não está assegurado.

O mercado hoje conta com um eventual início de um ciclo de distensão monetária a partir de janeiro. Mas o que o BC mostrou, por meio de resultados de seus modelos de projeção apresentados na ata, é que a trajetória de inflação no cenário de mercado (com menor perseverança e vigilância da política monetária) não se aproxima da meta, pelo menos com o conjunto de informações hoje disponíveis. Apesar disso, as avaliações colhidas ontem dentro do Banco Central são de que os analistas  do mercado compreenderam bem a mensagem da ata. Um dos pontos realçados no documento é que, no manejo da política monetária, o Banco Central olha o que estão dizendo os seus próprios modelos sobre a evolução da inflação.

Mas o  BC, segundo apurou o Valor, também quer ter certeza de que a inflação se situará onde estão apostando as suas projeções. Além disso, o Banco Central também está expressando, na ata, que não considera suficientes os progressos obtidos até agora na redução das expectativas de inflação do mercado de 2016, que têm se mantido estáveis. O conjunto dessas variáveis modelos do BC e comportamento das expectativas de inflação mostra que a política monetária tem que permanecer vigilante.

Na visão da autoridade monetária, é muito importante que a sociedade entenda que o seu banco central está determinado a cumprir a tarefa para o qual foi mandatado de trazer a inflação para a meta ao fim de 2016. Ontem, o entendimento dominante do mercado foi que o Banco Central ainda não terminou o ciclo de aperto monetário; que autoridade monetária deixou portas abertas para movimentos tanto de 0,25 ponto percentual quanto de 0,5 ponto percentual em junho; e sinalizou que não está disposto a voltar a baixar a Selic tão cedo.

O recado de que o ciclo de aperto monetário não terminou é bastante explícito num trecho reproduzido de atas anteriores em que avisa que “os avanços no combate à inflação ainda não se mostram suficientes”. O Copom deixa mais de uma porta aberta para os seus próximos movimentos de política monetária no mesmo parágrafo, o de número 31. Ele começa reconhecendo que o cenário de convergência da inflação à meta no fim de 2016 tem se fortalecido, mas pondera que os avanços ainda não são suficientes.

O Valor apurou que, em versões anteriores da ata, esse parágrafo foi escrito com um início “dovish” para indicar a possibilidade de uma alta de juros de apenas 0,25 ponto percentual. Mas terminou de forma mais “hawkish” para sinalizar que uma alta de 0,5 ponto percentual também era considerada. Discursos de autoridades do BC, nas semanas seguintes, acabaram moldando as apostas do mercado em torno de uma alta de 0,5 ponto percentual. No ano passado, quando parou de subir os juros e declarou explicitamente que pretendia mantê-los estáveis, o BC usou a palavra “vigilante” para avisar que voltaria a subi-lo, se fosse necessário. Como, de fato, fez a partir de outubro de 2014.

O Copom havia eliminado, em janeiro deste ano, a menção de que a política monetária deveria se manter “especialmente vigilante” do parágrafo que dá sua estratégia central para a alta de juros. O “especialmente” indicava claramente a intenção de fazer movimentos de 0,5 ponto. Naquele mês, o Copom adotou a frase que começa num tom moderado e termina conservadora, abrindo o leque teórico de opções entre 0,25 ponto percentual e 0,5 ponto percentual, embora no fim das contas os movimentos acabaram sendo mesmo de 0,5 ponto.

Com algumas adaptações, a palavra “vigilante” foi incorporado apenas ao discurso de autoridades do BC em pronunciamento públicos (para ser rigoroso com os fatos, “especialmente vigilante” nunca deixou o paragrafo 21 da ata, mas esse é um trecho secundário do documento). “Irei me dedicar à condução da política monetária, que foi, está e continuará vigilante”, disse o presidente do BC, Alexandre Tombini, em abril. Há algum tempo, portanto, Tombini está avisando que o Copom não tem intenção de baixar a guarda.

Na ata, o Copom também evita fazer muita festa em torno de eventuais progressos no cenário inflacionário. Sua projeção de inflação para 2016, por exemplo, manteve-se estável no cenário de referência e se elevou no cenário de mercado, comparado aos percentuais que o BC havia encontrado na ata de março. É bem possível que essas diferenças se devam à depreciação cambial ocorrida entre março e abril. Alguns analistas econômicos acham que, hoje, depois de mais uma alta de juros, os modelos do BC já  apontam uma inflação mais próxima de 4,5%, embora provavelmente não tenha chegado lá. A ata passa ao largo desses presumidos progressos capturados pelos seus modelos de projeção.

Também não supervaloriza argumentos que, na sua visão, poderiam ajudar a baixar a inflação, como menor repasse do câmbio para índices de preços ou alta do desemprego. Por exemplo, o documento diz que dados mostram o “início de um processo de distensão” no mercado de trabalho. Mas trata essa evolução como ainda incerta, ao dizer que “é preciso ampliar o horizonte de observações”.

Valor Econômico