Demanda tem recuo recorde e deve agravar queda do PIB em 2016

O recuo de 1,7% da atividade econômica no terceiro trimestre em relação aos três meses anteriores, feitos os ajustes sazonais, veio ainda pior que o apontado pela média de projeções coletadas pelo Valor Data, de ­ 1,3% e provocou uma série de revisões nas previsões para o Produto Interno Bruto (PIB) deste e do próximo ano. Principais surpresas negativas dos dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os serviços e o consumo das famílias, dois componentes bastante ligados à dinâmica da renda e do mercado de trabalho e que vinham resistindo mais à perda de tração da economia, sinalizam um contração mais forte do PIB nos próximos períodos.

Para economistas, o desempenho dessas duas variáveis deve se unir aos resultados já bastante negativos da indústria e dos investimentos e imprimir uma queda acentuada da demanda doméstica, que já chega a 4% no acumulado em quatro trimestres ­ de longe a mais intensa da série, que começa em 1997 ­, segundo a Rosenberg Associados.

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Só a chamada herança estatística, ou seja, o efeito dos dados apurados sobre os próximos trimestres se tudo fosse mantido, já encomendaria um encolhimento entre 1,5% e 2% para o produto em 2016, calculam economistas ­ sem contar, portanto, as perspectivas pouco favoráveis impostas pelas condições políticas. Este foi o terceiro trimestre seguido de queda do PIB, algo que não havia sido visto ainda na série dessazonalizada, disponível desde 1996.

Os investimentos, medidos pela Formação Bruta do Capital Fixo (FBCF), diminuíram 4% em relação ao trimestre anterior, numa série inédita de nove quedas consecutivas, e devem encerrar o ano com um encolhimento de dois dígitos. No acumulado de 2015, o recuo já é de 12,7% e, em quatro trimestres, de 11,2%. Já o consumo das famílias aprofundou de maneira acentuada a trajetória de queda que vinha desenhando desde o início do ano. Acumulado em quatro trimestres, a demanda privada saiu de redução de 0,6% no período encerrado em julho para um recuo três vezes maior, de 1,8%. A contração na passagem do segundo para o terceiro trimestre, de 1,5%, foi mais forte do que o 0,9% projetado pelos economistas ouvidos pelo Valor Data.

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Do lado da oferta, a indústria, mesmo tendo vindo melhor que o esperado ­ queda de 1,3% na série com ajuste sazonal, quando a projeção era de baixa de 2,6% ­, não dá sinais de estabilização. O pior desempenho, porém, veio do setor agropecuário, que registrou um tombo de 2,4%, enquanto a média das projeções apontava ligeira alta de 0,2%. Como o setor tem participação pequena no valor adicionado, de 5,2%, sua contribuição para a queda de 1,7% em relação ao segundo trimestre foi negativa em apenas 0,1 ponto percentual, nas contas de Rodrigo Alves de Melo, economista­chefe da IcatuVanguarda.

Observando a comparação com o mesmo trimestre do ano passado, pode­se ter uma ideia mais nítida da situação extremamente delicada da atividade econômica. Além de jamais ter sido visto um recuo de 4,5% no PIB de um trimestre na comparação ano a ano, são inéditos seis trimestres de queda e os recordes negativos em componentes da demanda, como o consumo das famílias (­4,5%) e a FBCF (­15%), e também da oferta, como serviços (­2,9%).

O economista­ chefe da MB Associados, Sérgio Vale, calcula que, no primeiro trimestre do próximo ano, a absorção doméstica ­ soma do consumo das famílias, do governo e dos investimentos ­ deve encolher 6,6% em relação a igual período deste ano, contra queda de 5,9% esperada para 2015. “Será um recuo recorde, não registrado nem no governo Collor”.

Nas contas da consultoria, o PIB vai cair 3,4% neste ano ­ com a demanda doméstica contribuindo negativamente com 5,9 pontos e as exportações líquidas amortecendo a queda, com alta de 2,8 pontos. Nas crises de 1999 e de 2003, ressalta Vale, anos em que o PIB cresceu 0,5% e 1,1%, a contração da demanda interna foi compensada pelo desempenho positivo da balança comercial. “O cenário atual reforça que a crise é essencialmente doméstica”.

Essa dinâmica faz com que a percepção interna de crise seja ainda pior do que o sinalizado pelos números consolidados, pondera a economista­chefe da Rosenberg Associados, Thais Marzola Zara. Da queda de 3,7% prevista pela para o produto neste ano, a demanda doméstica deve tirar 6,2 pontos percentuais, com contribuição positiva de 2,5 pontos do setor externo. No acumulado em quatro trimestres, a queda da absorção já é de quatro pontos, contra ajuda de 1,5 ponto das exportações líquidas.

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“A queda da demanda doméstica deve continuar”, diz Melo, da Icatu Vanguarda, citando fatores como a deterioração adicional do mercado de trabalho ainda por vir, que trará reduções maiores da massa salarial, assim como a falta de gatilhos para uma recuperação da confiança, o que afeta negativamente a formação de capital fixo. Após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, Melo passou a trabalhar com queda de 3,1% do PIB em 2016, que deve ser influenciada por retração mais forte da demanda. Ao lado de serviços e consumo das famílias ­ que representam 70,8% da oferta e 62,4% da demanda, nessa ordem ­, o cenário negativo já desenhado para os próximos trimestres é arrematado pelo horizonte remoto de recuperação da indústria e dos investimentos.

Depois de encolher expressivos 11,5% neste ano, segundo as projeções da GO Associados, a FBCF deve ceder outros 4% em 2016, de acordo com o economista Fabio Silveira. A retração mais intensa que a do PIB, prevista em 2,5%, deprimiria ainda mais a taxa de investimento, que passou de 20,2% no terceiro trimestre do ano passado para 18,2% ­ nível já bastante distante da média observada entre 2010 e 2013, de 21,4%. Ao lado do mercado de trabalho em desaceleração, o economista do Goldman Sachs, Alberto Ramos, enumera entre os fatores que devem contribuir para derrubar a demanda doméstica neste e no próximo ano o aperto no crédito, a inflação alta, os estoques elevados na indústria, o aumento de impostos e de tarifas públicas e a alta da inadimplência.

Para ele, o que antes era uma “recessão profunda” resultante de ajustes necessários para corrigir desequilíbrios macroeconômicos, tem se transformado em uma “depressão econômica” provocada pela contração expressiva da demanda doméstica. A expectativa do banco americano de retração de 3,6% da atividade neste ano prevê uma queda superior a 6% da demanda doméstica.