Descontrole da inflação é o risco a ser enfrentado

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Investidores precisam administrar os efeitos da reação do Banco Central à maior alta dos índices de preço nos últimos cinco anos

Os indicadores de inflação no Brasil pioraram. A variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nos 12 meses encerrados em agosto deste ano foi de 9,68%, a taxa mais alta desde o período terminado em fevereiro de 2016. As perspectivas para o futuro também não são boas. Segundo sondagem realizada pela Fundação Getulio Vargas, a expectativa dos consumidores para o aumento de preços nos próximos 12 meses é de 6,90%. É o valor mais alto desde julho de 2017.

Os analistas de mercado também estão pessimistas. De acordo com os dados coletados pelo Banco Central (BC), a projeção para a variação do IPCA nos próximos 12 meses é de 4,83%. No começo do ano, a previsão dos especialistas era de que a inflação seria de 4,07%.

O impacto dessa piora de expectativas também é refletido nas operações de longo prazo no mercado financeiro. No começo do ano, os juros dos títulos públicos prefixados com vencimento em três anos estavam em 6,4% ao ano. As aplicações indexadas ao IPCA para prazo equivalente tinham remuneração de 1,9% ao ano acima da inflação.

Significa que a diferença entre a taxa prefixada e a vinculada à inflação era de 4,5 pontos percentuais. Esse número pode ser interpretado como sendo a inflação implícita para o período de três anos. Para entender, imagine que você precise decidir entre investir no Tesouro Prefixado ou no Tesouro IPCA+, ambos com o mesmo prazo de vencimento. Para que, no fim do período, as aplicações acabem com a mesma remuneração, a correção pela inflação do Tesouro IPCA+, somada com a taxa de juros do título, deve ser igual à rentabilidade do Tesouro Prefixado.

Do ponto de vista pragmático, no começo do ano, um gestor de recursos poderia ficar “vendido” em Tesouro IPCA+ e “comprado” no Tesouro Prefixado se acreditasse que a inflação no período fosse de, no máximo, 4,5% ao ano. Agora, as condições para essa operação são diferentes. No dia 10 de setembro, a remuneração do Tesouro Prefixado com vencimento em 2024 estava em 9,97% ao ano, e o Tesouro IPCA+ 2024 era negociado com juros de 4,32% ao ano acima do IPCA.

A diferença indica que a margem de segurança entre uma operação “vendida” no Tesouro IPCA+ e “comprada” no Tesouro Prefixado aumentou para cerca de 5,65% ao ano. Do ponto de vista de um investidor avesso ao risco de inflação, no começo do ano ele poderia comprar proteção para o caso de a variação do IPCA ficar em 4,5% ao ano nos próximos três anos. Agora, a proteção é para inflação de 5,65% ao ano no período de três anos. Por esse ponto de vista, significa que aumentou a preocupação com a variação dos índices de preços no longo prazo.

Para coordenar as expectativas, o BC trabalha com as metas anuais de inflação estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A meta para 2021 foi fixada em 3,5%. Esse valor não será atingido, tendo em vista que a inflação acumulada no ano já está em 5,67%. Para os anos de 2022, 2023 e 2024, as metas são de 3,5%, 3,25% e 3%, respectivamente. Existe uma margem de tolerância para esses valores. O BC pode considerar a missão cumprida se o IPCA ficar abaixo de 5%, 4,75% e 4,5% nos anos de 2022, 2023 e 2024, respectivamente.

O instrumento que o BC usa para que as expectativas de inflação acabem convergindo para as metas é a taxa Selic. Atualmente a Selic está em 5,25% ao ano e a previsão é de aumento para pelo menos 6,25% ao ano na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no dia 23 de setembro. A estratégia do BC é relativamente simples. Enquanto a inflação não convergir para a meta estabelecida, a taxa Selic vai sendo progressivamente aumentada. O aumento dos juros provoca piora nas condições financeiras e tende a reduzir a atividade econômica. Num ambiente de negócios pior, o incentivo para o repasse de preços diminui.

Adicionalmente, os juros mais elevados podem atrair capitais externos para o país e provocar a queda da cotação do dólar. Com isso, torna os produtos importados mais baratos e a inflação tende a cair. A contrapartida são eventuais manifestações de insatisfação da sociedade. Em um ambiente econômico menos dinâmico, a incerteza de que a estratégia seguida pelo BC acabará dando os resultados esperados tende a provocar questionamentos.

O Brasil tem um longo histórico de luta contra a inflação. A avaliação do que aconteceu nos períodos passados pode dar algumas pistas sobre as estratégias de investimento no atual cenário de aumento da variação dos índices de preço.

Marcelo d’Agosto é economista especializado em administração de investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro.

Fonte: Valor Econômico