À medida que as mudanças climáticas avançam e as regulamentações globais tornam-se mais rigorosas, seguradoras enfrentam o desafio de medir e reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Atuários, com sua expertise técnica, estão liderando esforços para calcular emissões, mitigar riscos e alinhar operações às metas do Acordo de Paris. Um olhar detalhado sobre os métodos utilizados revela o papel estratégico e técnico dos atuários na construção de um setor mais sustentável.
O protocolo de emissões: fundamentos técnicos
O Protocolo de Gases de Efeito Estufa (GHGp) é o principal guia global para contabilizar e reportar emissões. Ele divide as emissões em três escopos:
- Escopo 1: Emissões diretas, como as provenientes de veículos e instalações próprias.
- Escopo 2: Emissões indiretas relacionadas à energia adquirida, como eletricidade para operações.
- Escopo 3: Emissões indiretas mais amplas, abrangendo desde viagens de negócios até investimentos e apólices de seguros.
No caso de seguradoras, as emissões financiadas (investimentos) e associadas a seguros representam a maior parcela do total e são também as mais complexas de quantificar.
Metodologias de cálculo: um guia técnico
A Partnership for Carbon Accounting Financials (PCAF) e o GHGp oferecem frameworks padronizados para mensurar emissões associadas a investimentos e seguros. Essas metodologias são fundamentais para garantir comparabilidade e precisão nos relatórios.
Cálculo de emissões financiadas
O cálculo das emissões financiadas é baseado no princípio da alocação proporcional, onde a seguradora assume responsabilidade pela fração das emissões de empresas nas quais investe. O processo inclui:
- Coleta de dados financeiros: Informações sobre valor de mercado, percentual de participação e montante investido;
- Perfil de emissões do investido: Dados reportados diretamente pelas empresas ou estimativas baseadas em fatores setoriais;
- Métodos de cálculo: para empresas com dados disponíveis, utiliza-se o fator de emissão específico, multiplicando o percentual de participação no investimento pelas emissões totais reportadas. Para empresas sem dados reportados, o cálculo utiliza aproximações com base no setor econômico, na geografia e na receita anual.
Cálculo de emissões associadas a seguros
As emissões associadas a apólices seguem abordagem semelhante, mas adaptada às especificidades das atividades de subscrição:
- Seguro automotivo: informações detalhadas sobre os veículos segurados (modelo, quilometragem anual e tipo de combustível). Fatores de conversão, como os fornecidos pelo IPCC e pela EPA, traduzem dados de uso veicular em emissões de carbono.
- Seguros corporativos: atribuição proporcional baseada no escopo da cobertura e no perfil de emissões da empresa segurada.Estimativas setoriais são usadas quando dados diretos não estão disponíveis.
Desafios e soluções técnicas
A precisão das estimativas depende de dados confiáveis, e o PCAF classifica a qualidade das informações em uma escala de 1 a 5:
- Nível 1: Dados completos e auditados, diretamente reportados pelas empresas.
- Nível 5: Estimativas amplas, baseadas em suposições gerais e setoriais.
Os principais desafios enfrentados pelos atuários incluem a falta de padronização (dados inconsistentes entre sistemas de investimento e subscrição dificultam a integração), dados insuficientes (pequenas e médias empresas frequentemente não possuem relatórios detalhados de emissões) e complexidade operacional (a integração de dados em sistemas heterogêneos requer tecnologia avançada e processos robustos).
Para superar esses obstáculos, os profissionais empregam ferramentas como SQL e Python para gerenciar grandes volumes de dados e desenvolver sistemas centralizados que automatizam cálculos e relatórios.
Planejamento estratégico e cenários
Uma vez calculadas as emissões, seguradoras podem estabelecer metas de descarbonização com base em frameworks reconhecidos, como o Science-Based Targets initiative (SBTi). Atuários conduzem análises de cenários para avaliar os impactos financeiros, a viabilidade técnica e os riscos climáticos futuros, identificando potenciais impactos sobre os ativos e passivos da empresa. As análises ainda consideram variáveis macroeconômicas, como crescimento populacional e custos energéticos, e variáveis específicas de negócios, como localização geográfica e desempenho setorial.
O papel transformador do atuário
A gestão de emissões e riscos climáticos exige um equilíbrio delicado entre precisão técnica, estratégia e inovação. Atuários, com sua habilidade de traduzir dados complexos em decisões práticas, estão na vanguarda desse movimento, liderando o setor de seguros em direção a uma economia de baixo carbono. Esse trabalho técnico e estratégico não apenas atende às exigências regulatórias, mas também fortalece a competitividade e a responsabilidade socioambiental do setor, colocando as seguradoras como agentes centrais de transformação no combate às mudanças climáticas.
