Para ex-secretário do Tesouro, o Banco Central (BC) iniciou o ciclo de corte em ritmo “correto” e não houve “exagero”
Há boas justificativas técnicas para o corte de 0,5 ponto percentual (p.p.) na Selic, como ocorreu, ou de 0,25 pp que era defendido por parte dos economistas, avalia Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual. Para ele, o Banco Central (BC) iniciou o ciclo de corte em ritmo “correto” e não houve “exagero”. Ainda segundo o ex-secretário do Tesouro, em algum momento, o mercado testará um
corte de 0,75 p.p.
“Se o BC repetir esse corte na taxa básica de juros nas últimas três reuniões que faltam até o fim do no, encerraremos o ano com taxa de juros nominal de 11,75%, o que dá ainda juro real muito alto e, por isso, nossa projeção de crescimento para o próximo ano ainda está relativamente baixa. Acho que o BC começou o corte no ritmo correto”, diz. As declarações foram dadas em evento promovido pela TAG Investimentos. A grande preocupação do BC na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), afirma ele, é que, em algum momento, o mercado testará um corte de 0,75 p.p. “Em algum momento, o mercado fará essa aposta, talvez para a última reunião do ano. Mas, mesmo assim, será um juro alto, de 11,5%, para início de 2024.”

Para acelerar esse corte, destaca Mansueto, o BC deixou muito claro nessa terça-feira (8) que será necessário melhora substancial na inflação corrente deste ano, uma reancoragem das expectativas de inflação para 2025 e 2026 e abertura de hiato do PIB, que é uma condição de mercado de trabalho muito mais folgada.
Juros pós-pandemia Mansueto lembra que o Brasil iniciou o ciclo de alta dos juros no período pós-pandemia de covid-19 mais cedo que os bancos centrais de outros países. O Banco Central foi “melhor que os bancos centrais em outros países”. “Bancos centrais americanos e europeus passaram mensagens dúbias na política monetária, mas tiveram sorte. A boa notícia é que há arrefecimento da inflação no mundo, nos EUA e Europa, sem recessão. No Brasil, houve um início de ciclo de subida de juros antes dos outros países. A boa notícia é que estamos com expectativa de inflação também melhorando, o que permitiu iniciar o ciclo de corte de juros.”
O ex-secretário do Tesouro Nacional destaca, porém, que ainda há grande incerteza sobre o novo patamar de juros no ambiente global. “Há economistas dizendo que talvez o novo mundo tenha EUA com inflação entre 2% e 3%, o que signifca que a taxa de juros americana pode não voltar a ser tão baixa quanto antes da pandemia de covid-19″.
“Ninguém sabe, mas, possivelmente, será um mundo com inflação nos EUA entre 2% e 3%, podendo ficar um pouco mais próximo de 3% ou 2%. E um mundo com juros entre 3% a 4% nos Estados Unidos. Acho que caminhamos para esse cenário, que é mais desafiador.”
O cenário, observa Mansueto, pode tornar mais desafiador ao Brasil atingir a meta de inflação de 3,25% em 2023 e 3,00% em 2024 e 2025, todas com margem de 1,5 p.p. para cima ou para baixo. Mesmo assim, pondera ele, o cenário de inflação, que era ruim quatro meses atrás, levava ao melhor nível de inflação média desde do Plano Real para o atual governo, considerando os quatro anos do mandato. “Se nos aproximarmos da meta, de 3%, ou ficarmos um pouco acima, já é cenário muito positivo. Mas onde a inflação vai se estabilizar ainda é incerto. Trazer a inflação de 8%, 9% para 3% e 4% é mais fácil do que trazer para 2% lá fora.”
Mansueto diz ainda que o cenário global de endividamento também sofre mudanças. “Estamos indo para um novo mundo com nível de endividamento maior em relação há dez anos, todos os governos vão carregar dívidas maiores. O gasto adicional irá gerar um problema de financiamento e vários países devem discutir a possibilidade de aumentar a carga tributária”, observa.
Crise de 2008
“Na Inglaterra, já está se discutindo isso. Estados Unidos e Brasil têm o mesmo problema. Teremos cenário de desafio de como reduzir essa dívida. Vamos migrar para período de taxa de juros maiores? Possivelmente, sim. Ninguém espera voltar a taxa de juros próximo de zero como foi depois da crise mundial de 2008 até antes da pandemia. Todos esperam que fiquemos com taxa de juros positiva. Agora, é difícil saber qual será a magnitude.”
O grande risco mundial, avalia Mansueto, é o que acontecerá com a questão fiscal, dada a demanda com gasto social decorrente do envelhecimento da população, com elevação de despesas de saúde e gastos com previdência. Também deve haver, cita, aumento de gastos com segurança e forças armadas.
Fonte: Valor Econômico
