Após estresse, gestores veem oportunidade nas NTN-Bs de longo prazo

person putting coin in a piggy bank

Em prazos mais longos, como os títulos com vencimento em 2050 e 2055, as taxas se aproximaram do nível simbólico de 5%, em contraste com cenário de juros reais extremamente baixos em todo o mundo

O estresse nos juros futuros nas últimas semanas se espalhou para as NTN-Bs, títulos do Tesouro Nacional indexados ao IPCA, e fez com que as taxas desses papéis disparassem. Em prazos mais longos, como os títulos com vencimento em 2050 e 2055, as taxas se aproximaram do nível simbólico de 5%. Em um contexto de juros reais extremamente baixos em todo o globo, o movimento chamou atenção de profissionais do mercado, que veem esses níveis como atrativos.

No momento em que os juros reais de longo prazo estão abaixo de zero no mundo desenvolvido, as taxas das NTN-Bs de longo prazo em torno de 5% têm sido observadas de perto. As taxas das TIPS de 30 anos, títulos americanos atrelados à inflação, têm operado em torno de menos 0,3%, enquanto a da NTN-B com vencimento em maio de 2050 encerrou o pregão de sexta-feira negociada a 4,9%, de acordo com dados da Renascença.

“A curva [os diversos vencimentos dos contratos de juros] como um todo está muito com muito prêmio e vemos valor na ponta longa [taxas de prazos mais longos]. Não acreditamos em um cenário de ruptura fiscal e vemos um ambiente externo no médio prazo com riscos maiores de uma atividade econômica mais fraca”, afirma Luiz Felipe Laudari, sócio e gestor da Mauá Capital. Para ele, a perspectiva de que o mundo não continuará inflacionário deve contribuir com juros reais mais baixos nos países desenvolvidos, o que tende a afetar as NTN-Bs. Assim, o gestor diz ver valor na parte longa da curva de juros reais. “São taxas que não víamos há muito tempo.”

Laudari reforça que o aumento da incerteza fiscal não se relaciona a dados de curto prazo, que têm melhorado. “Os níveis de dívida/PIB estão melhores e há uma trajetória benigna em relação ao que se esperava, mas sempre partimos do pressuposto de que não vamos ter uma ruptura fiscal no país. Desde que houve o anúncio dos precatórios, a incerteza aumentou muito. O mercado entende que parcelar os precatórios pode ser um default e retirar do teto e atrelar a um fundo são soluções que geraram ruído muito grande. Por isso, o mercado sofreu bastante.”

Na visão do gestor da Mauá, há um prêmio de risco fiscal elevado que só deve ser retirado de forma consistente quando o governo der uma sinalização forte de responsabilidade fiscal. Laudari também destaca que, quando as taxas das NTN-Bs longas abrem muito, aumenta a demanda pelos papéis por parte de fundos de pensão. “Eles aproveitam o momento e isso traz consequências para outros ativos de risco, já que esses fundos mobilizam parte de suas carteiras para travar investimentos de longo prazo e tiram um fluxo potencial para outros ativos de risco que seria esperado tanto para crédito quanto para bolsa”, diz.

Com esse contexto em mãos, a Neo Investimentos também aponta que as taxas das NTN-Bs de longo prazo em torno de 5% “começam a chamar atenção, justamente por estarem muito elevadas”. Para Mario Schalch, sócio-fundador e gestor da Neo, os preços já embute, nesses níveis, “um risco razoável de as coisas darem errado no Brasil”. Schalch enfatiza que o mercado ainda está bastante incerto em relação aos próximos passos na política fiscal e, assim, destaca que, ao menos por enquanto, a Neo permanece “bem leve” em suas posições no mercado de juros. “Tenho olhado mais a parte de inclinação da curva, porque é um momento complicado para operar o direcional, dado que muitos movimentos podem estar ocasionados por ‘stop’ de posições”, diz.

Assim, o gestor afirma acreditar que o momento atual é o de analisar o cenário. “Não sabemos qual será o resultado final e existem várias possibilidades. A reforma tributária pode ser abandonada, existe a possibilidade de os precatórios serem excluídos do teto e o Bolsa Família ser ampliado, se houver a criação de um fundo para o pagamento dos precatórios ele pode ser usado para outras coisas É um momento difícil e é preciso esperar para termos uma melhor visibilidade do que será decidido”, diz Schalch.

Como observa Rodrigo Cruz, gestor da Meraki Capital, o susto do mercado com as pressões inflacionárias mais intensas do que o esperado e o aumento das incertezas fiscais tiveram reflexo direto no aumento dos prêmios de risco. “Por isso os juros reais começaram a piorar muito. A inflação alta se somou ao componente fiscal e elevou o prêmio de risco dos títulos, de forma geral.” Cruz afirma, adicionalmente, que o lado técnico das NTN-Bs também sofreu uma piora recente, já que o mercado tem comprado os papéis atrelados à inflação até como forma de proteção. Apesar de tudo, o gestor diz que, como a abertura da curva se deu em fases, o mercado não sofreu com limites de alta nos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI). Para ele, porém, é possível que haja um desmonte de posições aplicadas em juro real. O gestor diz gostar das NTN-Bs curtas, mas ressalta que o fator técnico ruim e a volatilidade tornam difícil montar posição no momento.

Fonte: Valor Econômico