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Rotatividade de planos médicos atinge 29,41%

13 de outubro de 2026 · Uncategorized

O balanço de beneficiários de agosto divulgado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar em 5 de outubro trouxe um crescimento modesto e, por baixo dele, o número que descreve a verdadeira dinâmica do setor. Os planos de assistência médica alcançaram 53.164.516 beneficiários e os exclusivamente odontológicos, 37.311.529. No acumulado de doze meses até agosto, a agência registrou 16.117.456 adesões contra 15.434.267 cancelamentos nos planos médico-hospitalares, saldo positivo de aproximadamente 683 mil vínculos e taxa de rotatividade de 29,41 por cento. No mês isolado, foram 1.237.646 adesões e 1.175.486 cancelamentos, saldo de cerca de 62 mil vínculos e rotatividade de 2,21 por cento. A agência ressalva que os números podem sofrer revisões retroativas e que a contagem é de vínculos.

A aritmética merece clareza. Para crescer 683 mil vínculos, pouco mais de 1,3 por cento da carteira, o setor movimentou 31,5 milhões de entradas e saídas em doze meses. Quase um terço da base se renovou para produzir acréscimo líquido de pouco mais de um ponto percentual. A composição desse movimento, segundo leitura de mercado dos dados de agosto, mostra concentração em um segmento: as seguradoras somaram cerca de 71 mil vínculos no mês e a medicina de grupo, 11 mil, enquanto as cooperativas médicas perderam aproximadamente 9 mil e as autogestões, 13 mil. Entre operadoras individuais, Amil acrescentou cerca de 37,9 mil e Bradesco Saúde cerca de 23 mil, enquanto a Hapvida perdeu cerca de 40 mil no mês e cerca de 166 mil no acumulado do ano. O painel de dados gerais da agência registra 887 operadoras com beneficiários em agosto, sendo 667 médico-hospitalares e 220 odontológicas.

Rotatividade dessa magnitude tem consequência direta sobre a nota técnica atuarial. Uma carteira que se renova em 29,41 por cento ao ano não é a mesma do exercício anterior, de modo que a experiência de sinistralidade apurada em um período descreve, em parcela relevante, uma população que não estará presente no período seguinte. Projetar frequência de utilização sobre essa base equivale a extrapolar o comportamento de um grupo para outro, e o erro resultante não é aleatório.

A direção do viés é previsível. Entrada e saída de carteira não são eventos independentes do estado de saúde do beneficiário. Quem ingressa enfrenta prazos de carência e apresenta, no primeiro ano, padrão de utilização inferior ao da carteira madura, o que deprime artificialmente a sinistralidade observada quando a entrada é intensa. Quem sai tende a ser quem usa menos ou quem perdeu o vínculo empregatício que sustentava o contrato coletivo, enquanto o beneficiário em tratamento tem o incentivo mais forte para permanecer. O resultado é duplo e aparentemente contraditório: a carteira é continuamente rejuvenescida pelo fluxo de entrada e simultaneamente envelhecida em termos de risco pela retenção seletiva dos usuários intensivos. Quem modela precisa separar os dois efeitos, porque o primeiro aparece na idade média e o segundo, não.

A implicação é que a hipótese de persistência deixa de ser variável secundária. Com rotação de quase um terço ao ano, a margem depende tanto da curva de utilização por tempo de permanência quanto da curva por idade, e a projeção que use apenas a segunda subestima o custo da carteira remanescente. A mensuração defensável exige abertura da experiência por coorte de ingresso, e não apenas por faixa etária, e teste contra cenário de queda do fluxo de entrada, situação em que o efeito de rejuvenescimento desaparece e o de retenção seletiva permanece.

O quadro financeiro do setor dá a medida da margem disponível para absorver esse erro. A sinistralidade das operadoras médico-hospitalares ficou em torno de 81 por cento no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento setorial divulgado em 7 de outubro. Na mesma data, a federação das operadoras apresentou resultado líquido 12,2 por cento inferior ao de igual período de 2025, com margem líquida recuando de 7,7 para 6,2 por cento e margem operacional, de 3,9 para 3,2 por cento. Com margem operacional de 3,2 por cento, erro de hipótese de um ponto percentual na sinistralidade consome quase um terço do resultado da operação.

Os reajustes autorizados completam o quadro. O teto para planos individuais e familiares foi fixado em 5,11 por cento, por decisão de 29 de maio publicada em 1º de junho, válido de 1º de maio de 2026 a 30 de abril de 2027. Nos coletivos, o painel de reajustes da própria agência aponta desaceleração: os contratos médico-hospitalares passaram de 10,76 por cento em 2025 para 9,9 por cento nos primeiros meses de 2026, enquanto os exclusivamente odontológicos subiram de 3,27 para 3,44 por cento; os contratos com menos de trinta vidas registraram 14,24 por cento em 2025. Reajuste de 5,11 por cento no individual, sinistralidade de 81 por cento e rotatividade de 29,41 por cento descrevem um segmento individual que não se sustenta por preço nem por escala, o que ajuda a explicar a perda de 1,5 milhão de consumidores nessa modalidade em doze anos, queda de 15 por cento, segundo a federação do setor.

As notificações de intermediação preliminar subiram 23 por cento em agosto, para 32,7 mil, segundo casa de análise, e é essa demanda que alimenta o indicador de garantia de atendimento.