Gastos com saúde aumentam em velocidade superior à do crescimento da renda média do brasileiro, e três razões para este desequilíbrio podem ser destacadas: a incorporação de novas tecnologias e procedimentos ao sistema, em muitos casos, de forma acrítica e sem avaliação de seu custo-efetividade; as falhas competitivas nos mercados de insumos, que criam monopólios na distribuição, com pouca base para comparação de preço aliado à qualidade; e a crescente judicialização, que desconsidera contratos e regulação, contribuindo para um ambiente institucional pouco atraente a novos empreendimentos. Encontrar o ponto de equilíbrio entre gastos e poder de compra é tarefa inadiável, sob a pena de se restringir o acesso da população aos planos e seguros de saúde e elitizar o consumo desse produto.
Nos últimos sete anos, enquanto a despesa assistencial evoluiu, em média, 14,5% ao ano, o número de beneficiários cresceu, anualmente, apenas 5,1%. A diferença entre estes dois indicadores, 9,0%, representa o crescimento da despesa per capita – logo, demonstra o peso do comprometimento da renda de quem contratou serviços privados de saúde. Admita-se que alguma parcela dos brasileiros com planos consiga obter aumento de renda equivalente ao IPCA – em torno de 6% ao ano. Ainda assim, na média, o beneficiário acaba por empenhar mais de 3% anuais da sua capacidade de pagamento pelo efeito da “boca do jacaré”, que se traduz na distância entre a evolução dos custos da medicina privada e o índice médio de inflação ao consumidor. É inquestionável que não será possível ir longe com um modelo que, anualmente, corrói rendimentos pessoais e verbas orçamentárias das empresas. Neste ritmo, o cenário que se projeta é que a despesa assistencial per capita e a despesa per capita real – isto é, descontada a inflação – terão dobrado, no prazo de nove e 23 anos, respectivamente.
O que mais preocupa é que o movimento imprudente em favor do crescimento dos gastos em saúde, muitas vezes, ganha contornos políticos e ideológicos distantes dos desejos e das capacidades orçamentárias da sociedade. Perícia é qualidade essencial a quem lida com riscos. O fortalecimento da confiança – com isso, dos investimentos no segmento – depende do equacionamento dessas variáveis.
Uma das razões da existência dos planos de saúde é o fato de que indivíduos querem se proteger de riscos. A função da operadora é agrupar esses riscos em um grupo que, dentro do princípio da mutualidade, partilha o financiamento do acesso aos variados serviços de saúde contratados – médicos, odontológicos, hospitalares e outros –, diante da necessidade de alguns beneficiários participantes da carteira. Dessa forma, administra o fundo coletivo, segundo regras e critérios estabelecidos e conhecidos.
Essa é uma importante função econômica e social, mas outras se estendem ao longo da cadeia produtiva, como a contribuição para a formação da poupança interna do País e o estímulo à inovação. Outra tarefa da operadora é assegurar o bom uso dos recursos, que têm como única fonte as mensalidades. Isso significa proteger quem, voluntariamente, opta pela saúde suplementar – seja consumidor, organização ou empresa. Ao apostar na eficiência de gestão e combater desperdícios, o setor assegura sua própria sobrevivência e a continuidade deste serviço.
