Um novo e abrangente relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), intitulado “Global Status Report on Neurology”, lança um alerta contundente sobre a vasta e crescente crise global em neurologia. O documento, publicado em 2025, revela que os sistemas de saúde em todo o mundo estão falhando em atender adequadamente às necessidades de bilhões de pessoas que vivem com distúrbios neurológicos. A principal conclusão é uma imagem sombria de desigualdade, onde o acesso a diagnósticos, tratamentos e cuidados essenciais é determinado mais pela geografia e pela renda do que pela necessidade clínica.
As condições neurológicas, que incluem desde acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e enxaquecas até epilepsia, demência e meningite, representam a principal causa de anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) e a segunda principal causa de morte em todo o mundo. Apesar de sua prevalência e impacto devastador, a resposta global tem sido inadequada, fragmentada e drasticamente subfinanciada. O relatório da OMS, baseado em dados coletados de 102 países, serve como o mais detalhado exame da capacidade neurológica global até o momento e um chamado urgente à ação para governos, profissionais de saúde e a comunidade internacional.
Um Abismo Entre Nações Ricas e Pobres
A descoberta mais gritante do relatório é a profunda disparidade no acesso a cuidados neurológicos entre países de alta, média e baixa renda. Enquanto nações ricas possuem uma infraestrutura de saúde robusta, os países em desenvolvimento enfrentam uma escassez crítica em quase todos os aspectos do cuidado neurológico.
“A disponibilidade e acessibilidade dos serviços neurológicos, especialmente em países de baixa e média renda, são insuficientes”, afirma o relatório. “As iniquidades são mais pronunciadas nesses países, onde serviços essenciais como unidades de AVC, cuidados neurointensivos, reabilitação e cuidados paliativos permanecem escassos.”
A pesquisa da OMS revela que, embora 92 dos 102 países participantes relatem ter algum tipo de serviço neurológico, a maioria desses serviços está concentrada em hospitais especializados em grandes centros urbanos. Apenas metade dos países oferece atendimento neurológico em ambientes não especializados, como a atenção primária, e a situação é ainda mais crítica nos países de baixa renda. Além disso, o cuidado pediátrico é alarmantemente negligenciado, com apenas 17% dos países oferecendo atendimento especializado para crianças com condições neurológicas.
Essa centralização geográfica cria “desertos neurológicos” em vastas áreas rurais, onde milhões de pessoas ficam sem acesso a qualquer forma de cuidado especializado. Para um paciente em uma área rural de um país de baixa renda, a jornada para obter um diagnóstico pode ser longa, cara e, muitas vezes, infrutífera.
A Crise da Força de Trabalho: Onde Estão os Neurologistas?
No cerne dessa desigualdade está uma crise de recursos humanos de proporções alarmantes. O relatório expõe um déficit severo e uma distribuição dramaticamente desigual de especialistas em neurologia em todo o mundo. Os números são um forte indicativo da escala do problema:
- Países de baixa renda possuem uma mediana de neurologistas por 100.000 habitantes que é 80 vezes menor do que a de países de alta renda.
- As regiões da África e do Sudeste Asiático apresentam as menores densidades de força de trabalho neurológica do mundo.
Essa escassez não se limita aos neurologistas. Faltam também neurocirurgiões, neurologistas pediátricos, enfermeiros especializados e terapeutas de reabilitação. Sem uma força de trabalho qualificada, mesmo a infraestrutura básica se torna ineficaz. O relatório observa que, embora 76% dos países ofereçam algum treinamento em nível de atenção primária para identificar e gerenciar distúrbios neurológicos, esses programas raramente incluem trabalhadores comunitários de saúde e farmacêuticos, que são frequentemente o primeiro e único ponto de contato para pacientes em comunidades carentes.
| Indicador de Desigualdade | Países de Baixa Renda | Países de Alta Renda | Conclusão Principal |
| Disponibilidade de Serviços | Serviços concentrados em centros urbanos; escassez de unidades de AVC e reabilitação. | Ampla disponibilidade em ambientes especializados e não especializados. | O acesso é um privilégio geográfico e econômico. |
| Força de Trabalho (Neurologistas) | Mediana 80 vezes menor de neurologistas por 100.000 habitantes. | Força de trabalho robusta e especializada. | Um “deserto” de especialistas nos países mais pobres. |
| Diretrizes Nacionais | Menos propensos a ter padrões de cuidado estabelecidos. | Maior probabilidade de ter diretrizes nacionais e protocolos clínicos. | A qualidade do cuidado é inconsistente e muitas vezes não baseada em evidências. |
| Financiamento | Financiamento dedicado é raro; foco em tratamento, não em prevenção. | Maior probabilidade de alocar fundos específicos para neurologia. | A falta de investimento perpetua o ciclo de negligência. |
O Impacto Humano e Econômico
Por trás das estatísticas, há um custo humano e econômico imenso. As condições neurológicas são frequentemente crônicas e progressivas, exigindo cuidados contínuos ao longo da vida. Na ausência de sistemas de saúde e de proteção social adequados, o fardo recai esmagadoramente sobre as famílias.
O relatório destaca que os cuidados são frequentemente prestados por familiares não remunerados, em sua maioria mulheres, que sacrificam suas próprias oportunidades de trabalho e bem-estar. Essa dinâmica, combinada com os altos custos diretos do tratamento e a perda de renda do paciente, empurra inúmeras famílias para a pobreza. “A falta de proteções sociais leva a dificuldades financeiras significativas, particularmente em países de baixa e média renda”, aponta o documento.
O impacto econômico mais amplo também é substancial. A perda de produtividade devido à incapacidade e morte prematura por distúrbios neurológicos custa trilhões de dólares à economia global anualmente. Investir em cuidados neurológicos não é, portanto, apenas um imperativo moral e de saúde pública, mas também uma estratégia econômica sólida.
Um Roteiro para a Mudança: O Plano de Ação Global (IGAP)
Apesar do cenário sombrio, o relatório da OMS não se limita a diagnosticar o problema. Ele oferece um caminho a seguir, centrado no Plano de Ação Global Intersetorial sobre Epilepsia e Outros Transtornos Neurológicos (IGAP). Aprovado pela Assembleia Mundial da Saúde, o IGAP serve como um roteiro para os países fortalecerem seus sistemas de saúde e melhorarem a vida das pessoas com distúrbios neurológicos.
O plano estabelece metas ambiciosas, como a de que 75% dos países adaptem ou atualizem suas políticas nacionais de saúde para incluir a neurologia até 2031. Ele se baseia em cinco pilares estratégicos:
- Aumentar a priorização política e a governança: Integrar a saúde cerebral nas agendas nacionais.
- Fornecer diagnóstico, tratamento e cuidados eficazes, oportunos e responsivos: Fortalecer os serviços em todos os níveis do sistema de saúde.
- Implementar estratégias de promoção e prevenção: Abordar os fatores de risco para distúrbios neurológicos.
- Fomentar a pesquisa, a inovação e os sistemas de informação: Construir uma base de evidências para orientar as políticas.
- Fortalecer a abordagem de saúde pública para a epilepsia.
O sucesso do IGAP depende de um compromisso político robusto e de um financiamento adequado. Atualmente, o relatório mostra que, embora alguns países de alta renda tenham alocado fundos para a neurologia, a maioria das nações não possui um orçamento dedicado. O financiamento existente é, em grande parte, direcionado ao tratamento, com investimentos insuficientes em prevenção, promoção da saúde cerebral e pesquisa.
O Desafio dos Dados
Um obstáculo fundamental para a formulação de políticas eficazes é a falta de dados confiáveis e consistentes. O relatório da OMS destaca que muitos sistemas nacionais de informação em saúde são fragmentados e não coletam dados rotineiramente sobre distúrbios neurológicos. Sem entender a verdadeira prevalência, a carga da doença e as lacunas no atendimento, os governos não podem planejar ou alocar recursos de forma eficaz.
A OMS apela por um investimento direcionado para fortalecer os sistemas de informação, com a colaboração de múltiplos setores para garantir que os dados sobre saúde cerebral sejam coletados, analisados e utilizados para impulsionar a mudança. A própria pesquisa IGAP, que engajou todos os 194 Estados Membros da OMS, é um passo nessa direção, estabelecendo uma linha de base para medir o progresso futuro.
Um Chamado à Ação Urgente
O “Global Status Report on Neurology” é mais do que um documento; é um espelho que reflete uma falha coletiva em priorizar a saúde do cérebro, o órgão que nos define como seres humanos. Ele revela um mundo onde o acesso a cuidados que podem salvar vidas e prevenir incapacidades é um luxo, e não um direito.
A mensagem final é clara: a inação não é uma opção. A comunidade global deve se unir para fechar o abismo no cuidado neurológico. Isso exigirá vontade política, investimento sustentado, inovação em modelos de cuidado e um compromisso inabalável com a equidade. Se essa crise silenciosa continuar a ser ignorada, as consequências humanas e econômicas se tornarão ainda mais profundas, afetando o desenvolvimento sustentável de nações inteiras por gerações.
Referências
[1] World Health Organization. (2025). Global status report on neurology. Geneva: World Health Organization.

