Varejo de lado, serviços em queda e prévia do PIB no zero a zero

Foi uma daquelas semanas em que os indicadores oficiais chegam quase em bloco e, juntos, contam uma história coerente. Na quinta-feira, 16 de julho, o IBGE divulgou de uma vez os números de varejo e de serviços referentes a maio. No dia seguinte, o Banco Central soltou a prévia do PIB. E na segunda, 20 de julho, veio o Boletim Focus. O retrato combinado é o de uma economia que perdeu fôlego no meio do ano, mas sem sinal de parada brusca.
A Pesquisa Mensal de Comércio mostrou alta de apenas 0,1% no volume de vendas de abril para maio, na série com ajuste sazonal. Foi pouco, mas foi o suficiente para interromper a queda de 1,6% registrada de março para abril. Na comparação com maio de 2025, o avanço foi de 0,4%. No acumulado do ano, o varejo sobe 1,7%, e em doze meses, 1,4%. O resultado veio abaixo do que o mercado esperava, já que uma pesquisa da Reuters projetava algo próximo de 0,5% na margem.
Olhar por dentro do dado ajuda a entender o momento do consumidor. Cinco das oito atividades pesquisadas avançaram. O destaque de alta foi livros, jornais, revistas e papelaria, com salto de 15,2%, seguido por tecidos, vestuário e calçados, com 3,1%, e móveis e eletrodomésticos, com 2,7%. Do outro lado, hipermercados e supermercados recuaram 1,5% e foram o principal peso negativo. Quando o item de maior participação no varejo, que é a comida no carrinho, cai, ele segura o índice geral mesmo com outras categorias em alta. Cristiano Santos, gerente da pesquisa no IBGE, resumiu o ano dizendo que o varejo vinha crescendo na maior parte do tempo em 2026, com abril tendo sido a única exceção negativa.
Os serviços foram na direção oposta. A Pesquisa Mensal de Serviços apontou recuo de 0,4% em maio ante abril, frustrando quem esperava estabilidade. O setor puxou para baixo por causa dos transportes, que respondem por cerca de um terço do segmento e caíram 1,0%. O peso veio da menor receita no transporte aéreo de passageiros, no transporte rodoviário de cargas e na logística. O transporte de passageiros recuou 1,3%, e o de cargas, 0,2%, na terceira queda seguida. Rodrigo Lobo, analista da pesquisa, atribuiu o resultado justamente a esse conjunto de atividades ligadas ao deslocamento de gente e de mercadorias.
Mesmo com o tropeço mensal, os serviços guardam uma marca de resiliência. Na comparação anual, o setor cresceu 0,4%, na 26ª leitura interanual positiva seguida, uma sequência longa. Ele está 19,6% acima do nível pré-pandemia, medido em fevereiro de 2020, e apenas 0,5% abaixo do pico histórico, alcançado em outubro de 2025. A leitura regional foi desigual, com resultado negativo em 12 das 27 unidades da federação. Distrito Federal, Roraima e Rondônia lideraram as altas, enquanto Amazonas, Ceará e Tocantins tiveram as maiores quedas.
Na sexta-feira, o Banco Central entregou o IBC-Br, o Índice de Atividade Econômica que funciona como prévia do PIB. Ele subiu 0,1% em maio ante abril, um pouco acima da expectativa de estagnação. Por dentro, indústria e serviços cresceram, com altas de 0,4% e 0,1% respectivamente, enquanto a agropecuária recuou 1,0% e foi o principal freio. Excluída a agricultura, o índice teria subido 0,2%. No trimestre encerrado em maio, o avanço foi de 0,7%, e em doze meses, de cerca de 1,35%. É uma trajetória ainda positiva, mas claramente desacelerando frente ao ritmo do início de 2026.
O quarto dado da semana veio do Boletim Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com mais de 130 instituições financeiras. A projeção de IPCA para 2026 caiu para 5,15%, ante 5,16% na semana anterior, na terceira redução seguida. É um alívio marginal, mas simbólico, porque marca uma virada de humor depois de meses em que o mercado só fazia elevar as estimativas de inflação. Ainda assim, o número segue bem acima do centro da meta, de 3%. A projeção de Selic para o fim de 2026 permaneceu em 14,00%, e a de PIB, em torno de 1,99%.
Costurando os quatro indicadores, o desenho é nítido. O varejo anda de lado, os serviços perderam tração por causa dos transportes, a atividade geral quase empatou, e as expectativas de inflação começam a ceder devagar enquanto os juros seguem no patamar alto de 14%. Uma economia que esfria, mas não trava. Vale lembrar o contexto imediatamente anterior à janela: o IPCA de junho, divulgado em 10 de julho, havia surpreendido para baixo, com alta de apenas 0,16% no mês e 4,64% em doze meses, puxado pela deflação de alimentos e bebidas. E a taxa de desemprego, pela PNAD Contínua do trimestre encerrado em maio, estava em 5,6%, a menor já registrada para o período desde o início da série, em 2012, com população ocupada perto de 102,7 milhões de pessoas. O próximo capítulo dos dados de trabalho, referente ao trimestre encerrado em junho, está previsto para 30 de julho.