Previdência aberta tem resgate líquido em junho e fecha o semestre com aportes 5,6% menores

A previdência privada aberta registrou resgate líquido em junho de 2026, primeiro mês negativo do ano, segundo dados da FenaPrevi divulgados nesta terça-feira, 4 de agosto. Os aportes somaram 11,5 bilhões de reais e os resgates, 11,8 bilhões, resultando em captação líquida negativa de cerca de 300 milhões. Com isso, a captação líquida acumulada do ano recuou de 6,8 bilhões de reais na posição de maio para 6,4 bilhões em junho.
No primeiro semestre, os aportes totalizaram 77,4 bilhões de reais, queda de 5,6% sobre igual período de 2025, o equivalente a 4,6 bilhões a menos. Os resgates somaram 71 bilhões, recuo de 5,9%, e a captação líquida ficou em 6,4 bilhões, com retração de 1,8%. O VGBL respondeu por 69,6 bilhões dos aportes, com queda de 7,2% em doze meses, o PGBL por 6,4 bilhões, ou 8,3% do total, e os planos tradicionais pelos 1,8% restantes. Comparado ao acumulado até abril, quando os aportes caíam 8,3%, houve desaceleração da retração ao longo do semestre, mas o mês de junho inverteu o sinal da captação.
O estoque continua crescendo apesar do fluxo. Os ativos administrados alcançaram 1,9 trilhão de reais em junho, alta de 13,1% em doze meses, o equivalente a aproximadamente 14% do produto interno bruto. A base soma 13,7 milhões de planos e 11,2 milhões de participantes, distribuídos em 8,6 milhões de planos de VGBL, ou 63,1% do total, 3,2 milhões de PGBL, 23,2%, e 1,8 milhão de planos tradicionais, 13,7%. A distância entre crescimento de estoque e retração de fluxo tem explicação aritmética simples: com juro nominal na casa de 14% ao ano, o rendimento incorporado às reservas supera com folga o efeito do resgate líquido marginal, o que sustenta o patrimônio mesmo com captação em queda.
A federação atribui parte relevante do movimento à tributação. A entidade estima diferença de captação de cerca de 130 bilhões de reais desde a incidência do imposto sobre operações financeiras em aportes de valor elevado em VGBL, iniciada em junho de 2025, e sustenta que a medida produziu efeito contrário ao esperado, redirecionando poupança de longo prazo para consumo e para investimentos isentos, além de registrar que nenhum outro país tributa aportes previdenciários dessa forma.
A leitura atuarial do resgate líquido depende da fase do contrato e não é uniforme. Em plano de acumulação puro, do tipo VGBL sem garantia de conversão em renda com tábua contratada, o resgate não gera perda técnica porque a provisão matemática de benefícios a conceder acompanha integralmente o saldo do fundo; o efeito é de receita, via redução da base sobre a qual incide a taxa de administração, e de duração, porque saída antecipada encurta o horizonte de casamento entre ativo e passivo. O problema se desloca para os contratos que preservam garantia de tábua e de juros na conversão, herdados de gerações anteriores de produto: nesses, a saída seletiva tende a ser dos participantes que se percebem em pior estado de saúde, isto é, dos que menos valorizam a renda vitalícia garantida, e o que permanece na carteira é a parcela com longevidade esperada acima da média, o que agrava a insuficiência da tábua contratada. É o mesmo mecanismo de antisseleção que justifica, nos seguros de renda, o uso de tábua de sobrevivência agravada.
O resultado das companhias já reflete a composição do ciclo. A BB Seguridade divulgou em 3 de agosto lucro líquido gerencial recorrente de 2,151 bilhões de reais no segundo trimestre, queda de 3,9% em doze meses e de 3,1% frente ao trimestre anterior, com 4,4 bilhões no semestre, alta de 3,2%. O resultado financeiro consolidado do trimestre somou 386 milhões, recuo de 16,7%, pressionado por marcações a mercado negativas e por maior custo dos passivos previdenciários. A Brasilprev, contudo, apresentou lucro de 875,5 milhões no semestre, alta de 13,5%, com captação líquida positiva de 2,8 bilhões de reais, revertendo resgate líquido de 5,2 bilhões no primeiro semestre de 2025, e ativos sob gestão acima de 500 bilhões. A carteira de investimentos do grupo em junho estava distribuída em 45,7% de pós-fixados, 39,2% de indexados à inflação e 15% de prefixados. Foram anunciados 3,85 bilhões de reais em dividendos, ou 1,98 real por ação, com pagamento em 3 de setembro.
No agregado do mercado supervisionado, a última posição oficial disponível continua sendo a de maio, divulgada em 14 de julho, com arrecadação de 172,89 bilhões de reais no acumulado de cinco meses, queda nominal de 1,70%, indenizações, resgates, benefícios e sorteios de 104,96 bilhões, recuo de 5,06%, e seguros de danos e pessoas, excluído o produto de acumulação, em 93,69 bilhões, alta nominal de 6,37%. O ramo vida cresceu 10,51% em termos nominais. Os dados de junho não haviam sido publicados até o fechamento desta edição. Nos seguros de pessoas, a federação apurou arrecadação de 27,3 bilhões de reais no primeiro quadrimestre, alta de 8,9%, com indenizações e benefícios pagos de 5,9 bilhões, alta de 6%, e crescimento de 28,5% nas indenizações de doenças graves.