Pesquisa do CMI mede em 1,1% a perda de expectativa de vida aos 65 anos e reabre a calibragem das tábuas

O Continuous Mortality Investigation, braço técnico do Institute and Faculty of Actuaries, publicou em 7 de julho o Working Paper 213, sexta edição anual de sua pesquisa entre subscritores sobre o uso do modelo de projeção de mortalidade. Responderam 25 assinantes, sendo 18 seguradoras e 7 resseguradoras. Em 31 de dezembro de 2025 o modelo mais utilizado era a versão CMI_2024; para 2026, 60 por cento dos respondentes indicaram que passarão a usar a versão CMI_2025 e cerca de 25 por cento pretendem permanecer na versão anterior. O achado de maior densidade está no impacto agregado da pandemia: a grande maioria dos respondentes reportou deterioração da expectativa de vida, e o efeito médio ponderado por passivo na idade 65 foi de redução de 1,1 por cento em relação à expectativa pré-pandêmica.
A magnitude parece modesta e não é. Aplicada à sobrevida esperada aos 65 anos da tábua brasileira de referência, de 18,8 anos na Tábua Completa de Mortalidade do IBGE com data-base 2024, uma redução de 1,1 por cento equivale a cerca de 0,21 ano, ou dois meses e meio de expectativa. Em um plano de benefício definido com renda vitalícia, essa variação se traduz em queda aproximada de 1 por cento no valor presente das obrigações de aposentados, efeito de ordem comparável ao de dez a quinze pontos-base na taxa real de desconto. Vai na direção contrária à hipótese de melhoria contínua embutida em quase todas as tábuas em uso, e o fato de um quarto dos subscritores britânicos ainda operar com a versão anterior do modelo indica que o mercado não trata a recalibragem como automática.
A dificuldade de leitura ficou visível na mesma semana. A Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido publicou nesta quinta-feira, 30 de julho, o relatório semanal de vigilância de mortalidade por todas as causas correspondente à semana 30 de 2026, com dados até a semana 26, encerrada em 28 de junho, e registrou sinal de mortalidade acima da linha de base na Inglaterra para todas as idades combinadas. A desagregação mostra que o sinal não aparece em nenhuma faixa abaixo de 65 anos e se concentra integralmente no grupo de 65 anos ou mais. Oito das nove regiões inglesas apresentaram sinal, com exceção do Nordeste, e o País de Gales também registrou excesso, enquanto Escócia e Irlanda do Norte não apresentaram. O critério é escore padronizado acima de 2, limiar que produz sinais por acaso em cerca de 2,5 por cento das observações. O relatório atribui contribuição a alertas de calor emitidos nas semanas 21, 22, 25, 26, 28 e 29, incluindo alerta vermelho na semana 26.
O contraponto é direto ao comunicado do próprio CMI de 9 de julho, que apurou taxa padronizada de mortalidade da Inglaterra e do País de Gales 2,4 por cento abaixo da registrada no primeiro semestre de 2025 e 5,4 por cento abaixo da média decenal de 2016 a 2025, com mínimos históricos em ambos os sexos e em todas as faixas monitoradas, sustentados por queda dos óbitos por influenza e pneumonia de 47.917 para 40.318 e dos atribuídos ao coronavírus de 2.329 para 777. As duas leituras são compatíveis: o acumulado semestral pode marcar mínimo histórico enquanto uma semana específica registra excesso concentrado em idosos por evento térmico. A consequência prática é que a hipótese biométrica precisa distinguir tendência de nível, que segue favorável, de aumento da variância em torno dela, que nenhuma escala de melhoria de mortalidade captura.
Do lado da experiência aplicada a rendas, o Society of Actuaries Research Institute disponibilizou em julho o estudo de mortalidade de rendas imediatas individuais referente ao período de 2020 a 2024. A base reúne 3,1 milhões de contratos-ano expostos, 33 bilhões de dólares de renda anual-ano exposta e mais de 143.190 óbitos registrados, provenientes de 23 grupos de matriz que abrangem 26 companhias e representam mais de 80 por cento das vendas do setor no período. A comparação é feita contra a tábua de anuidades individuais de 2012, e o estudo anterior cobria de 2014 a 2019, de modo que a nova edição é a primeira a incorporar integralmente os anos de excesso de mortalidade. As razões entre óbitos observados e esperados ainda não foram publicadas, e o relatório consolidado sairá em breve, o que mantém em aberto quanto da experiência pandêmica se incorporou de forma permanente à carteira de anuidades.
A bifurcação regional da experiência de mortalidade continuou a se aprofundar. Na República Democrática do Congo, os dados governamentais de 28 de julho apontam 3.442 casos e 1.521 óbitos por doença causada pelo ebolavírus da espécie Bundibugyo, com 797 pacientes em isolamento, 615 curados e rastreamento de contatos em cerca de 78 por cento, contra meta de 95 por cento. O relatório de situação número 72 do Institut National de Santé Publique, com dados de 25 de julho, registrava 3.200 casos confirmados, 1.405 óbitos e letalidade de 43,9 por cento, com 48 de 140 zonas sanitárias afetadas em cinco províncias, 89,0 por cento dos casos concentrados em Ituri e 123 profissionais de saúde infectados, dos quais 37 morreram, letalidade de 30,1 por cento nessa categoria. O surto foi declarado em 15 de maio e alcançou 1.500 óbitos em prazo muito inferior aos oito meses que a epidemia da África Ocidental levou para atingir patamar equivalente.
A resposta técnica avançou em duas frentes que interessam à precificação de risco catastrófico. A Universidade de Oxford anunciou em 24 de julho a vacinação do primeiro voluntário no mundo contra o ebolavírus Bundibugyo, em ensaio de fase um conduzido pelo Oxford Vaccine Group com a vacina ChAdOx1 BDBV, plataforma de adenovírus de chimpanzé, com 50 voluntários saudáveis de 18 a 55 anos, 4.000 doses investigacionais e financiamento de 8,6 milhões de dólares da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations. Em paralelo, o ensaio de profilaxia pós-exposição EBO-PEP, lançado em 14 de julho e com recrutamento iniciado em 29 de julho, testa o antiviral oral obeldesivir em cerca de mil participantes acima de 12 anos em Ituri e em Uganda, com 3,4 milhões de euros da Comissão Europeia e período de monitoramento de 42 dias.