Inflação abaixo do piso reabre a discussão sobre taxa de juros

O IBGE divulgou nesta terça-feira, às 9 horas, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 referente a julho, com variação de 0,06 por cento, ante 0,41 por cento em junho. A desaceleração de 0,35 ponto percentual produziu resultado inferior ao piso das projeções de mercado, que se distribuíam entre 0,17 e 0,28 por cento, com mediana em 0,19 por cento. No acumulado do ano o índice alcança 3,51 por cento e, em doze meses, recuou para 4,52 por cento, ante mediana esperada de 4,67 por cento. O período de coleta compreendeu 17 de junho a 15 de julho, contra base de 16 de maio a 16 de junho.
A composição merece leitura cuidadosa de quem calibra hipóteses inflacionárias de médio e longo prazo. O grupo Habitação registrou a maior variação e o maior impacto, com alta de 0,97 por cento e contribuição de 0,15 ponto percentual, determinada pelo subitem energia elétrica residencial, que subiu 3,03 por cento em razão de reajustes tarifários aplicados em Curitiba, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Em sentido contrário, Alimentação e bebidas recuou 0,66 por cento, com contribuição negativa de 0,15 ponto percentual, puxada por quedas de 19,95 por cento no tomate e de 10,03 por cento na batata-inglesa. Passagem aérea avançou 11,70 por cento e o etanol cedeu 2,50 por cento. Entre as áreas pesquisadas, o Rio de Janeiro apresentou a maior alta, de 0,44 por cento, e Belém a maior queda, de 0,22 por cento negativos.
A reação da estrutura a termo foi imediata e é o efeito de maior consequência para mensuração de passivos. As taxas de juro futuro recuaram em toda a extensão da curva. O contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2029 passou de 14,34 para 14,21 por cento e o vencimento de janeiro de 2030 caiu de 14,51 para 14,40 por cento, quedas de aproximadamente 13 e 11 pontos-base, movimento que ocorreu a despeito da valorização do dólar na sessão. O Ibovespa reagiu com alta próxima de 1 por cento. Para um passivo com duração de quinze anos, deslocamento paralelo de 10 pontos-base na taxa real eleva o valor presente em cerca de 1,5 por cento, magnitude que altera a posição de solvência de planos que operam com folga estreita. Convém, portanto, aguardar a estrutura a termo de juro real divulgada no fechamento de julho antes de fixar a taxa de desconto do exercício.
As referências de juro real disponíveis continuam favoráveis. Nos leilões do Tesouro Nacional realizados em 21 de julho foram vendidas 150 mil Notas do Tesouro Nacional série B, distribuídas igualmente em três vencimentos, com taxas de corte de 8,2980 por cento ao ano para maio de 2031, 7,9540 por cento para maio de 2037 e 7,4650 por cento para agosto de 2060. No leilão anterior, de 14 de julho, os cortes haviam sido de 8,3190 por cento para 2029, 8,1390 por cento para 2033 e 7,4410 por cento para 2055. A comparação revela estabilidade no vértice ultralongo e inclinação negativa persistente da curva real, configuração que penaliza estratégias de imunização concentradas em prazos curtos e recompensa o alongamento. Planos com meta de índice de preços acrescido de 5 por cento ao ano podem imunizar integralmente o passivo com folga aproximada de 250 pontos-base, situação atipicamente confortável.
O Relatório Focus divulgado na segunda-feira, com coleta até 24 de julho, já apontava na mesma direção. A mediana de inflação para 2026 recuou de 5,15 para 5,12 por cento, quarta redução semanal consecutiva. Para 2027 a mediana subiu de 4,20 para 4,22 por cento e, para 2028, de 3,78 para 3,80 por cento, segunda elevação seguida. Para 2029 permaneceu em 3,50 por cento. A projeção de produto interno bruto de 2026 seguiu em 1,99 por cento pela quarta semana e a de 2027 recuou de 1,65 para 1,60 por cento. A Selic esperada para o encerramento de 2026 manteve-se em 14 por cento pela quinta semana consecutiva e a de 2027 em 12 por cento pela sexta. O câmbio projetado para dezembro seguiu em 5,20 reais por dólar. A taxa vigente é de 14,25 por cento ao ano, fixada em 17 de junho, e o Comitê de Política Monetária volta a se reunir em 4 e 5 de agosto.
A permanência das medianas de 2028 e 2029 em 3,80 e 3,50 por cento, acima da meta de 3 por cento, é o dado mais relevante para modelagem de longo prazo. Enquanto a expectativa distante não convergir ao centro do regime, hipóteses inflacionárias entre 3,5 e 4 por cento ao ano permanecem mais defensáveis do que a adoção da meta cheia em avaliações atuariais. A trajetória implícita de Selic, de 14 por cento em 2026 para 12 por cento em 2027, representa queda de 200 pontos-base no juro nominal em doze meses, com juro real ex ante ainda próximo de 8 por cento. Nesse patamar, taxas reais de desconto entre 4,5 e 5,5 por cento ao ano continuam conservadoras, embora a convergência esperada torne recomendável teste de sensibilidade descendente.
No setor externo, o Banco Central informou nesta terça-feira que o déficit em transações correntes recuou para 2,3 bilhões de dólares em junho, ante 5,2 bilhões em igual mês de 2025, retração próxima de 56 por cento. As exportações somaram 36,4 bilhões de dólares, maior valor da série histórica, com avanço de 24,8 por cento, e o saldo comercial subiu para 8,8 bilhões, contra 5,2 bilhões um ano antes. A conta de serviços registrou déficit de 5,1 bilhões, pressionada por viagens internacionais, transportes e telecomunicações. O investimento direto no país totalizou 9,1 bilhões de dólares no mês, quase o triplo dos 3,1 bilhões de junho de 2025, acumulando 89,3 bilhões em doze meses. As reservas internacionais encerraram junho em 367,6 bilhões de dólares, recuo de 3,6 bilhões sobre maio por variação cambial e de preços de ativos.
A agenda estatística da semana reserva dois eventos de interesse direto. A Pesquisa Anual de Comércio de 2024 sai nesta quarta-feira e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua na quinta-feira, esta última insumo relevante para hipóteses de rotatividade, crescimento salarial e entrada em aposentadoria. O dado mais recente de mercado de trabalho refere-se ao trimestre encerrado em maio, com desocupação de 5,6 por cento. Registre-se ainda que o Boletim Macrofiscal da Secretaria de Política Econômica, de 16 de julho, elevou a estimativa de inflação de 4,5 para 5,1 por cento e projetou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor em 5,3 por cento, indexador que reajusta os benefícios do Regime Geral e pressiona diretamente o custo dos passivos previdenciários públicos.