Idosos serão 19,6% da população mundial em 2060

O Escritório do Censo dos Estados Unidos publicou em agosto de 2026 o relatório An Aging World: 2025, estudo internacional de referência sobre envelhecimento populacional, assinado por Rachel Bacon, Daniel Goodkind, Paul Kowal, Anne Morse e Mitali Sen. O documento registra um marco sem precedente na demografia moderna: entre 2020 e 2025, a proporção da população mundial com 65 anos ou mais superou, pela primeira vez na história registrada, a proporção de crianças com até 5 anos de idade. A edição estende as projeções até 2060, dez anos além do horizonte da edição anterior, de 2015.
Os números centrais delimitam a velocidade da transição. A população mundial, estimada em 8,2 bilhões de pessoas em 2024, deve alcançar 9,6 bilhões em 2050 e atingir pico de 10,3 bilhões em meados da década de 2080. A parcela com 65 anos ou mais passa de 10,5 por cento em 2025 para 19,6 por cento em 2060, praticamente dobrando em trinta e cinco anos. Setenta e sete países já apresentam quatorze por cento ou mais da população em idades avançadas, concentração associada às economias de renda mais alta. O Japão registra 29,7 por cento em 2025 e vê sua população total declinar desde 2008; a Rússia perde população desde 1996. A Coreia do Sul é projetada como o país mais envelhecido do mundo em 2060, com quarenta e um por cento da população acima de 65 anos.
A abertura regional revela que a transição não é uniforme nem em nível nem em ritmo. Na Europa, a parcela com 65 anos ou mais passa de 21,0 por cento em 2025 para 30,8 por cento em 2060, com expectativa de vida ao nascer na União Europeia de 81,5 anos em 2024, sendo 84,1 anos para mulheres e 78,9 para homens. Nos Estados Unidos, o avanço é mais lento: de 18,9 por cento para 23,4 por cento no mesmo intervalo, com expectativa de vida ao nascer de 79,0 anos em 2024, correspondentes a 76,5 anos para homens e 81,4 para mulheres. A África, partindo de base jovem, deve reunir 249 milhões de pessoas com 65 anos ou mais até 2060, número que altera a escala absoluta do problema mesmo com participação relativa baixa.
O dado tecnicamente mais útil do relatório, e o menos citado no debate público, é a expectativa de sobrevida aos 65 anos. Nos Estados Unidos, ela alcança 19,7 anos, sendo 20,8 anos para mulheres e 18,4 para homens. Essa é a medida que importa para precificação de anuidades e para cálculo de provisões matemáticas de benefícios concedidos, e não a expectativa de vida ao nascer, que incorpora mortalidade infantil e adulta jovem irrelevantes para quem já ingressou em benefício. Comparar países pela expectativa ao nascer, prática comum em apresentações institucionais, mede coisa diferente daquela que determina o custo do compromisso previdenciário. Para referência nacional, as tábuas completas de mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística referentes a 2024 indicam expectativa de vida ao nascer de 76,6 anos no Brasil.
Do relatório extrai-se também um alerta sobre morbidade que costuma escapar aos modelos de custeio. Setenta e três por cento dos americanos com 65 anos ou mais apresentavam duas ou mais condições crônicas no levantamento referente ao período de 2016 a 2019. Multimorbidade em idade avançada é a variável que conecta a agenda demográfica à agenda de saúde suplementar e de assistência de longa duração, porque o custo assistencial não cresce linearmente com a idade, e sim com a acumulação de condições simultâneas. Modelo que aplica fator etário sobre custo médio, sem considerar a distribuição de comorbidade dentro de cada faixa, subestima as idades acima de 75 anos, exatamente a faixa que mais cresce em todas as regiões cobertas pelo estudo.
A implicação central para a prática atuarial é a rejeição da tábua estática. Se a proporção de idosos praticamente dobra em trinta e cinco anos, e se a expectativa de sobrevida aos 65 anos continua se estendendo, então avaliar passivo de longo prazo com tábua fixa equivale a supor que o processo documentado pelo relatório se interrompe na data da avaliação. A prática internacional consolidada é aplicar escala de melhoria de mortalidade, projetando redução futura das probabilidades de morte por idade e por geração, com revisão periódica da própria escala. No Brasil, a adoção de tábuas geracionais permanece minoritária fora do segmento de seguros de vida e previdência aberta, e a discussão sobre uma escala de melhoria construída com dados nacionais, em vez de importada, segue sem endereçamento formal.
Resta uma dimensão de risco agregado que o relatório ajuda a medir. Risco de longevidade individual é diversificável: em massa suficientemente grande, desvios individuais se compensam. Risco de longevidade sistemático, decorrente de erro na hipótese de melhoria de mortalidade aplicada a toda a população, não se diversifica por tamanho de carteira, porque atinge todos os participantes na mesma direção. É esse componente que justifica capital adicional em regimes de solvência baseados em risco e que sustenta o mercado internacional de transferência de longevidade. Um documento que projeta a proporção mundial de idosos praticamente dobrando até 2060 mede, em substância, a magnitude potencial desse erro sistemático, e deveria ser lido nessa chave pelas áreas técnicas.