Focus reduz o crescimento de 2026 e Instituição Fiscal Independente projeta dívida bruta em 86,4% do PIB em 2027

A pesquisa de expectativas de mercado divulgada pelo Banco Central na segunda-feira, 24 de agosto de 2026, trouxe a quarta redução consecutiva da projeção de crescimento para o ano corrente. A mediana do produto interno bruto de 2026 recuou de 1,98 para 1,95 por cento. A de 2027 permaneceu em 1,50 por cento e a de 2028 subiu de 1,89 para 1,98 por cento, invertendo a sequência de quedas registrada nas semanas anteriores. A mediana de inflação para 2026 ficou estável em 5,02 por cento pela segunda semana consecutiva, acima do teto da meta, e a de 2027 avançou marginalmente de 4,24 para 4,25 por cento. A taxa básica projetada para o fim de 2026 seguiu em 13,75 por cento pela terceira semana e a de 2027, em 12,00 por cento pela décima. O câmbio de fim de 2026 permaneceu em 5,20 reais por dólar e o de 2027 subiu de 5,29 para 5,30 reais.
O quadro descrito pelo mercado é o de uma economia que desacelera sem entregar convergência de inflação, e é justamente essa combinação que define o preço do instrumento de imunização de passivos longos. O leilão de títulos indexados a preços realizado em 18 de agosto de 2026 ofereceu a leitura mais nítida disso. O Tesouro Nacional vendeu a totalidade dos 1,2 milhão de títulos ofertados, movimentando 5,20 bilhões de reais, no maior leilão da modalidade desde abril, realizado no dia seguinte ao vencimento de cerca de 260 bilhões de reais em papéis da mesma classe. As taxas reais aceitas foram de 8,1285 por cento ao ano para o vencimento de maio de 2031, que concentrou 3,34 bilhões de reais, ou aproximadamente 64 por cento do volume; 7,8320 por cento para maio de 2037, com 1,27 bilhão; e 7,4540 por cento para agosto de 2060, com 590,33 milhões. A concentração da demanda no vértice curto, com apenas um nono do volume alocado no papel de trinta e quatro anos, mostra que a preferência por menor duração persiste mesmo quando a taxa real de longuíssimo prazo supera sete pontos e meio.
A relevância desse número para o trabalho atuarial é imediata. A taxa de juros parâmetro divulgada pela autarquia de previdência complementar em 28 de abril de 2026, construída sobre a média da estrutura a termo diária dos últimos cinco anos apurada pela associação de mercado de capitais, situa-se entre 6,09 por cento ao ano para o prazo de dez anos e 6,15 por cento para trinta e três anos ou mais, com 6,58 por cento no prazo de um ano e 6,12 por cento em três e em vinte anos. Comparado a esse conjunto, o juro real de mercado observado em 18 de agosto excede em mais de cento e trinta pontos-base a taxa parâmetro de longo prazo. A entidade que adota hipótese alinhada ao parâmetro está, portanto, descontando obrigações a taxa inferior à que o mercado oferece hoje para o mesmo prazo, o que produz reserva matemática maior e exigência de custeio mais conservadora do que a estritamente necessária, desde que o casamento de fluxo seja efetivamente realizado. O prazo para que entidades que adotem taxa fora do corredor apresentem justificativa técnica encerra em 31 de agosto de 2026, ou seja, em seis dias.
Do lado fiscal, o Relatório de Acompanhamento Fiscal número 115, publicado pela Instituição Fiscal Independente do Senado Federal em 20 de agosto de 2026, oferece o contraponto que a curva de juros precifica. As projeções da instituição para 2026 são de crescimento real de 2,0 por cento, produto nominal de 13.667,1 bilhões de reais, inflação de 5,0 por cento, câmbio de 5,2 reais e taxa básica de 14,0 por cento ao fim do período. Para 2027, o crescimento cede a 1,8 por cento e a inflação a 4,0 por cento, com taxa básica de 12,0 por cento. O resultado primário do setor público consolidado é projetado em déficit de 0,4 por cento do produto em 2026 e de 0,6 por cento em 2027, ambos abaixo do centro da meta fixada na lei de diretrizes orçamentárias, que é de superávit de 34,3 bilhões de reais, equivalente a 0,25 por cento do produto.
Os números que mais importam para a formação da taxa de desconto de longo prazo são os de estoque. A dívida bruta do governo geral é projetada em 82,5 por cento do produto em 2026 e em 86,4 por cento em 2027, avanço de 3,9 pontos percentuais em um único exercício. Os juros nominais líquidos consomem 8,6 por cento do produto em 2026 e 8,5 por cento em 2027, e o resultado nominal fica em déficit de 9,0 e de 9,2 por cento, respectivamente. O resultado primário estrutural acumulado em quatro trimestres deteriorou-se de déficit de 0,7 por cento do produto até junho de 2025 para déficit de 1,4 por cento até junho de 2026, piora de 0,6 ponto percentual que a instituição atribui a fatores não cíclicos.
A conclusão prática para quem calibra hipóteses de longo prazo é que a taxa real de sete pontos e meio observada no papel de 2060 não é anomalia de mercado a ser suavizada por média histórica, e sim preço de risco fiscal projetado por instituição oficial. Reduzir a hipótese de taxa real de longo prazo enquanto o estoque de dívida caminha para 86 por cento do produto seria antecipar uma convergência que nenhuma das duas fontes consultadas projeta.