Copom inicia reunião com aposta de Selic em 13,75%aa

O Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil iniciou nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, a sua 281ª reunião ordinária, cuja decisão será anunciada na noite de quarta-feira, 16 de setembro. A taxa Selic encontra-se em 14,00 por cento ao ano desde 6 de agosto de 2026, patamar fixado na 280ª reunião por decisão unânime dos sete membros do colegiado, presidido por Gabriel Muricca Galípolo. O consenso predominante entre as casas de análise consultadas aponta redução de 0,25 ponto percentual, movimento que levaria a taxa básica a 13,75 por cento ao ano. Não houve, até o fechamento desta edição, comunicado oficial da autoridade monetária sobre a reunião em curso, de modo que a expectativa de corte é leitura de mercado, e não anúncio de política.
O Relatório de Mercado divulgado em 14 de setembro fornece o pano de fundo quantitativo dessa expectativa. A mediana das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo em 2026 recuou para 4,90 por cento, ante 5,00 por cento na apuração de 7 de setembro e 5,33 por cento na leitura de 22 de junho, o que configura a quarta rodada consecutiva de revisão baixista. Para 2027 a mediana ficou em 4,30 por cento, praticamente estável frente aos 4,29 por cento anteriores, e para 2028 permaneceu em 3,80 por cento. A trajetória esperada da taxa básica manteve-se em 13,75 por cento ao final de 2026, 12,00 por cento ao final de 2027 e 10,50 por cento ao final de 2028.
Há, contudo, um detalhe estatístico no próprio relatório que merece atenção de quem constrói cenário. A leitura restrita aos informantes que atualizaram suas projeções nos cinco dias úteis mais recentes apontava 13,56 por cento para a Selic de dezembro de 2026, portanto 0,19 ponto percentual abaixo da mediana do conjunto. A diferença entre a mediana geral e a submediana dos informantes recentes não é ruído: ela mede a velocidade com que a informação nova está sendo incorporada e sinaliza que parte relevante do mercado já embute corte adicional além do que a estatística agregada revela. Em modelagem estocástica de curva de juros, essa dispersão é insumo de calibração, não curiosidade.
As projeções de atividade foram na direção oposta. A mediana de crescimento do produto interno bruto em 2026 caiu para 1,89 por cento, ante 1,93 por cento na semana anterior e 1,98 por cento em 22 de junho, com revisão atribuída ao consumo das famílias abaixo do esperado no segundo trimestre. Para 2027 a projeção recuou de 1,50 para 1,45 por cento e para 2028, de 1,96 para 1,87 por cento. O câmbio projetado para o encerramento de 2026 permanece em 5,20 reais por dólar pela décima terceira semana consecutiva; para 2027 a mediana caiu de 5,30 para 5,28 reais e para 2028 manteve-se em 5,30 reais.
Os indicadores de atividade confirmam a moderação. O volume de serviços ficou estável em julho de 2026 na comparação com junho, em série dessazonalizada, resultado abaixo da expectativa mediana de mercado, que apontava alta de 0,2 por cento. O acumulado em doze meses do setor está em 2,4 por cento e o acumulado no ano, entre janeiro e julho, em 1,9 por cento. O segmento de turismo destoou, com avanço de 2,7 por cento na margem e 0,6 por cento em doze meses. No agregado, o produto interno bruto cresceu 0,5 por cento no segundo trimestre de 2026 frente ao primeiro, desaceleração relevante ante a alta de 1,1 por cento registrada no trimestre anterior.
A leitura atuarial exige separar o que muda do que não muda. Um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica é evento de curtíssimo prazo e não autoriza, por si, redução da taxa de desconto empregada em avaliação de benefícios pós-emprego, em provisões matemáticas de benefícios a conceder ou em planos de custeio de regimes próprios. A taxa de desconto atuarial deve refletir o rendimento de títulos de baixo risco de crédito com prazo compatível com a duração do passivo, e no caso brasileiro isso significa a curva real de títulos públicos indexados a índice de preços, não a taxa de política monetária. A confusão entre as duas é erro recorrente e produz volatilidade artificial no passivo.
O que efetivamente se desloca é a taxa real de curto prazo e, por consequência, o retorno esperado dos ativos de liquidez das carteiras. Com mediana de inflação em 4,90 por cento para 2026 e Selic de 13,75 por cento, a taxa real implícita no horizonte de doze meses aproxima-se de 8,4 por cento, patamar historicamente elevado que continua sustentando a superação das metas atuariais na renda fixa e adiando decisões de rebalanceamento. O vetor de risco permanece do lado fiscal: a dívida bruta do governo geral alcançou 82,51 por cento do produto em julho, e é esse componente, não o ciclo monetário, que determina o prêmio embutido nos vértices longos da curva real disponível para casamento de fluxo.