Carteira individual encolhe e o crescimento do setor se concentra no coletivo empresarial

O Instituto de Estudos de Saúde Suplementar publicou em julho a edição 119 de sua Nota de Acompanhamento de Beneficiários, com data-base de maio de 2026, e o retrato é o de um mercado que cresce em vínculos, mas altera de forma silenciosa a composição de risco que sustenta a precificação. Os planos médico-hospitalares somavam 53.077.896 beneficiários, avanço de 1,5 por cento em doze meses, ou 760,5 mil vínculos adicionais, com incremento de 256.201 vínculos, 0,5 por cento, no trimestre encerrado em maio. A cobertura nacional ficou em 24,8 por cento da população. Os planos exclusivamente odontológicos alcançaram 36.196.058 beneficiários, alta de 4,4 por cento, ou 1,52 milhão de vínculos, com cobertura de 16,9 por cento.
A abertura por tipo de contratação explica onde o crescimento se concentra e por que ele preocupa. Os contratos individuais e familiares recuaram 2,3 por cento em doze meses, para 8.430.198 beneficiários, ao passo que os coletivos avançaram 2,2 por cento, para 44.624.829. Dentro do bloco coletivo, o empresarial subiu 2,5 por cento, para 38.806.445 vínculos, e o coletivo por adesão praticamente estagnou, com alta de 0,2 por cento e 5.818.207 beneficiários. A carteira individual, portanto, encolhe em ritmo consistente enquanto o setor cresce, e essa é a única modalidade submetida a teto de reajuste fixado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, atualmente em 5,11 por cento para contratos com aniversário entre maio de 2026 e abril de 2027.
O efeito atuarial dessa migração é conhecido e cumulativo. Carteira individual em contração sob teto regulatório tende a reter os beneficiários de maior utilização esperada, porque quem tem baixa sinistralidade encontra alternativa mais barata no mercado coletivo ou simplesmente abandona o produto. A permanência seletiva eleva a frequência e a severidade médias do grupo remanescente sem elevação correspondente da receita, e a operadora que mantém produto individual registrado precisa refletir essa deterioração na nota técnica, hipótese que o teto impede de repassar integralmente. O resultado é margem comprimida no segmento regulado, compensada pelo coletivo empresarial, no qual a repactuação anual ocorre por negociação bilateral. A dependência do subsídio cruzado se acentua a cada trimestre em que a proporção individual recua.
A leitura por modalidade acrescenta camada relevante. As seguradoras especializadas em saúde cresceram 9,8 por cento em doze meses, para 7.614.849 beneficiários, e a medicina de grupo avançou 2,4 por cento, para 21.388.693. Em sentido oposto, as cooperativas médicas recuaram 1,7 por cento, para 18.544.297, as autogestões perderam 2,1 por cento, chegando a 4.468.084, e a filantropia cedeu 0,4 por cento, para 1.061.973. O deslocamento de carteira das cooperativas e autogestões para seguradoras e medicina de grupo tem consequência direta sobre a estrutura de provisões, uma vez que a operação sob regime securitário está sujeita a exigências de capital e de constituição da provisão de eventos ocorridos e não avisados com metodologia mais rígida.
A retração das autogestões é o dado de maior interesse para quem acompanha benefícios patrocinados. Perda de 2,1 por cento em doze meses em segmento que já representa menos de 8,5 por cento do mercado indica continuidade do movimento de terceirização da assistência, com transferência do risco a operadoras comerciais. Para o patrocinador, a decisão troca passivo de assistência pós-emprego, mensurado por norma contábil específica e sujeito a hipóteses de custo médico crescente, por despesa contratual anual. A troca reduz volatilidade no balanço, mas elimina o controle sobre a curva de custo de longo prazo.
A distribuição setorial reforça a sensibilidade do mercado ao emprego formal. Serviços concentrava 23.383.101 beneficiários, com alta de 3,0 por cento em doze meses, seguido do comércio, com 10.454.746 e alta de 1,6 por cento, e da indústria, com 9.107.184 e avanço de apenas 0,7 por cento. A construção civil somava 3.104.798 vínculos, com alta de 3,0 por cento, e a agropecuária, 1.828.162, em queda de 0,9 por cento. Como a carteira coletiva empresarial acompanha o estoque de emprego com carteira assinada, desaceleração no mercado de trabalho se traduz em perda de beneficiários com defasagem de poucos meses, elemento que precisa constar das projeções de receita e do teste de suficiência de prêmios.
A concentração geográfica permanece elevada. A cobertura por planos médico-hospitalares alcançava 35,4 por cento da população no Sudeste, 25,1 por cento no Centro-Oeste, 24,1 por cento no Sul, 13,1 por cento no Nordeste e 10,8 por cento no Norte. Na cobertura odontológica, o Sudeste registrava 22,9 por cento e o Norte, 8,1 por cento. São Paulo acrescentou 396.747 beneficiários médico-hospitalares em doze meses, alta de 2,2 por cento, ao passo que o Rio de Janeiro perdeu 55.442 vínculos, queda de 1,0 por cento. No segmento odontológico, os contratos individuais recuaram 8,5 por cento no país, para 5.793.121, contra alta de 7,3 por cento no coletivo, que alcançou 30.401.173.
A rotatividade completa o quadro e é o parâmetro mais delicado da precificação. Nos doze meses encerrados em maio o setor registrou 15.919.141 ingressos e 15.158.676 cancelamentos, o que corresponde a giro anual próximo de 29 por cento da carteira. Somente em maio houve 1.272.600 entradas e 1.136.836 saídas, equivalentes a 2,2 por cento do estoque. Giro dessa magnitude significa que a carteira se renova quase integralmente em pouco mais de três anos, o que inviabiliza a recuperação de custos de aquisição em horizonte longo e amplifica a seleção adversa na renovação, uma vez que a decisão de permanecer é tomada por quem antecipa utilização. A agência não publicou fato novo entre 24 e 29 de julho, e a agenda próxima concentra o encerramento do Chamamento Público 4 e a vigência da cobertura obrigatória de testosterona injetável, ambos em 3 de agosto, o fim da Consulta Pública 174 em 11 de agosto e a vigência da ablação por campo pulsado em 1º de setembro.