ANS mostra 2 bilhões de procedimentos em 2025

A ANS colocou no ar, no apagar das luzes de junho, a atualização do Mapa Assistencial da Saúde Suplementar com os dados de 2025, e os números dominaram a conversa do setor ao longo desta primeira semana de julho. Os planos de saúde realizaram cerca de 2 bilhões de procedimentos no ano passado, somando consultas, exames, terapias, internações e atendimentos odontológicos. É um crescimento de 3,7% em relação a 2024. Para dimensionar a máquina, o Mapa reúne as informações que as operadoras enviam à agência e permite acompanhar, ano a ano, como os beneficiários de fato usam o sistema.
O grupo dos exames ambulatoriais continua sendo o coração da produção assistencial. Foram 1,23 bilhão de exames em 2025, alta de 3,9%, o que representa mais de 60% de tudo o que o setor produziu. As consultas médicas somaram 288,7 milhões, com avanço mais modesto de 1,5%. Os procedimentos odontológicos chegaram a 203,7 milhões de registros, crescimento de 6,7%. O dado que mais chama atenção pelo ritmo é o das internações, que subiram 8,9% e atingiram 9,9 milhões de registros, a maior alta proporcional entre os grandes grupos de atendimento. Internação é o procedimento mais caro da cadeia, e um crescimento nesse patamar liga um alerta sobre pressão de custo para os próximos ciclos.
O Mapa não é uma peça isolada. Ele conversa diretamente com a discussão sobre reajuste e sinistralidade que atravessa 2026. A sinistralidade, indicador que mede quanto da receita das operadoras vai para o pagamento de contas médicas, fechou o primeiro trimestre de 2026 em 81%, alta de 1,8 ponto percentual sobre o mesmo período de 2025. No acumulado dos nove primeiros meses de 2025, o índice havia recuado para 81,9%, o menor desde 2021, e ajudou o setor a montar o lucro de R$ 17,9 bilhões no período. A retomada do uso, retratada no Mapa, explica por que a sinistralidade voltou a subir na virada para 2026. Quanto mais exame e internação, maior a despesa assistencial.
Esse é o pano de fundo dos reajustes deste ano. A ANS fixou em 5,11% o teto para o reajuste dos planos individuais e familiares regulamentados no ciclo que vai de maio de 2026 a abril de 2027, o menor percentual já definido pela agência com exceção de 2021, quando houve reajuste negativo por causa da queda de uso durante a pandemia. O índice atinge cerca de 7,7 milhões de beneficiários, o equivalente a 14,5% dos 52,9 milhões de consumidores de planos médico-hospitalares. Para quem tem contrato com aniversário em maio ou junho, a cobrança do novo valor começa a aparecer nas mensalidades de julho e agosto, com efeito retroativo ao mês de aniversário, o que torna o tema quente justamente agora.
Os planos coletivos, que respondem pela maior fatia do mercado, seguem outra lógica, negociada entre operadora e empresa contratante, com regra de agrupamento para contratos de até 29 vidas. Nos dois primeiros meses de 2026, o reajuste médio dos coletivos ficou em 9,9%, o menor em cinco anos, mas ainda assim mais que o dobro da inflação oficial. E há o capítulo dos planos antigos, anteriores à Lei nº 9.656 de 1998, vinculados a Termos de Compromisso com a ANS. Para esses contratos, a agência autorizou reajustes de até 5,52% para operadoras de Medicina de Grupo, caso da Amil, e de até 6,20% para Seguradoras Especializadas em Saúde, o que alcança Bradesco Saúde, SulAmérica e Itauseg. São 158.605 beneficiários nessa condição, um grupo pequeno em número, mas simbólico por reunir os contratos mais antigos do mercado.
Os números do Mapa também iluminam o retrato demográfico que preocupa o setor. O sistema chegou a 53 milhões de vínculos de planos médico-hospitalares em março de 2026, com crescimento superior a um milhão de vidas em doze meses. Por trás do saldo positivo há uma rotatividade alta, de quase 28% no acumulado, com mais de 15 milhões de adesões e cerca de 14,5 milhões de cancelamentos no período. Ou seja, o setor cresce, mas troca de gente o tempo todo, o que dificulta o planejamento de longo prazo e encarece a operação. Somado ao envelhecimento da carteira, esse quadro ajuda a entender por que operadoras insistem que a recuperação financeira recente não elimina fragilidades estruturais.
A ABRAMGE, que reúne cerca de 140 operadoras em 19 estados e responde por mais de 17 milhões de beneficiários, o equivalente a 35% do mercado, tem repetido esse alerta. O presidente da entidade, Gustavo Ribeiro, avalia que os dados recentes mostram um processo de recuperação, mas ressalta que um conjunto significativo de operadoras de pequeno e médio porte ainda enfrenta dificuldades econômico-financeiras. A leitura combina com o que o Mapa Assistencial escancara: a demanda por serviço cresce em todas as frentes, com destaque para exames e internações, e a conta chega mais rápido do que o reajuste consegue acompanhar. Para o consumidor, o Mapa é uma ferramenta de transparência que permite consultar a produção por tipo de procedimento, modalidade da operadora, forma de contratação e período. Para operadoras e regulador, é o termômetro que vai pautar as próximas rodadas de discussão sobre preço, cobertura e sustentabilidade do sistema.