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Longevity Bulletin do IFoA articula dividendo demográfico, pressão sobre o sistema de saúde e gerofármacos

21 de agosto de 2026 · Notícias

O Institute and Faculty of Actuaries publicou em agosto de 2026 a edição número 18 do Longevity Bulletin, intitulada “The longer lifetimes issue”, sob edição de Michael Anderson e edição adjunta de Leigh Costanza, com prefácio do presidente da instituição, Paul Sweeting. A publicação reúne três artigos que, lidos em conjunto, examinam o que acontece com a economia, com o sistema de saúde e com a precificação de risco quando a expectativa de vida deixa de crescer de forma previsível.
O primeiro artigo, assinado por Tanya Singh, do International Longevity Centre do Reino Unido, trata do chamado segundo dividendo demográfico, isto é, o ganho de produtividade que decorre não do aumento da população em idade ativa, mas da acumulação de ativos e de capital humano que o próprio envelhecimento induz. Singh recorre ao National Transfer Accounts Project, arcabouço que compatibiliza fluxos de consumo e de renda por idade em mais de uma centena de economias, e o utiliza para construir um índice normalizado que permite comparações intertemporais. O ponto de partida é demográfico e severo: em 2050, projeta-se que uma em cada seis pessoas no mundo terá mais de 65 anos, contra uma em cada onze em 2019.


Os resultados quantitativos apresentados sustentam a tese de que a transição demográfica não é automaticamente contracionista. A autora cita evidência de que um aumento de dez pontos percentuais na parcela da população com mais de 60 anos se associa a uma queda de 5,5 por cento no crescimento do produto interno bruto per capita, o que estabelece a magnitude do problema. Contra esse pano de fundo, o índice de segundo dividendo demográfico da Coreia do Sul mais do que dobrou e, pelas projeções correntes, deve aproximadamente triplicar até meados do século. A composição do dividendo também se desloca no tempo: entre 2040 e 2070, cerca de 65 por cento da contribuição vem do gasto em educação e saúde por trabalhador, e não mais da poupança financeira. Singh registra ainda a dispersão dos ativos previdenciários capitalizados nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, com média de 52 por cento do produto interno bruto e amplitude que vai de mais de 100 por cento a menos de 15 por cento, o que revela quão desigual é a capacidade dos países de converter longevidade em prosperidade.


O segundo artigo, de Nicky Draper e Mohamed Elsheemy, examina a pressão que a longevidade exerce sobre o National Health Service britânico. Os autores partem da distinção entre expectativa de vida total e expectativa de vida saudável e mostram que, no Reino Unido, as mulheres vivem 60,9 anos em boa saúde dentro de uma vida média de 83,0 anos, o equivalente a 73 por cento do total, enquanto os homens registram 60,7 anos saudáveis em 79,1 anos de vida, ou 77 por cento. Em termos agregados, aproximadamente 25 por cento da vida no Reino Unido é hoje vivida em condição de saúde precária, e os autores projetam crescimento particularmente rápido da proporção de pessoas que convivem com quatro ou mais condições crônicas simultâneas.


A dimensão distributiva é a parte mais desconfortável do texto. Entre 2022 e 2024, a expectativa de vida saudável das mulheres residentes nas áreas mais carentes da Inglaterra foi de 49,8 anos, contra 68,5 anos nas áreas menos carentes. Para os homens, os valores foram de 48,2 e 69,2 anos, respectivamente. O hiato entre extremos de privação oscilou entre 17,9 e 20,3 anos ao longo da última década, aproximando-se de duas décadas inteiras de vida saudável perdidas por razão de renda e território. Os autores acrescentam o recorte da exclusão digital: 6 por cento dos domicílios britânicos não têm acesso à internet em casa e cerca de 37 por cento das pessoas sem acesso apontam barreiras ligadas a limitações de saúde, o que compromete estratégias de prevenção apoiadas em telemedicina.


O terceiro artigo, de Richard Faragher e Guy Coughlan, é o que traz consequências mais diretas para a modelagem de risco. Os autores contextualizam o ganho histórico de longevidade, que passou de 32 anos de expectativa de vida ao nascer em 1900 para 73 anos em 2023, e observam que, aos 85 anos, praticamente ninguém permanece livre de doença. A partir daí, avaliam o potencial dos gerofármacos, medicamentos que atuam sobre mecanismos do envelhecimento e não sobre doenças isoladas. Os números de referência são instrutivos: quatro intervenções comportamentais adotadas na meia-idade podem adicionar até 14 anos de expectativa de vida saudável, o tratamento da hipertensão reduz o acidente vascular cerebral entre 35 e 40 por cento, o infarto do miocárdio entre 20 e 25 por cento e a insuficiência cardíaca em mais de 50 por cento, e a mortalidade ajustada por idade nos Estados Unidos caiu 57 por cento para acidente vascular cerebral e 63 por cento para doença coronariana entre 1979 e 2007.


O que distingue os gerofármacos é a distribuição do benefício. Os autores mostram que a estatina prescrita a homens de 50 anos produz ganho médio de sete meses de vida, mas essa média esconde que 93 por cento dos indivíduos não obtêm ganho algum, enquanto os 7 por cento restantes experimentam aumento médio de 8,25 anos. Já a normalização de peso e composição corporal adicionaria entre seis e sete anos à expectativa de vida de pessoas de 40 anos, e até dez anos em indivíduos mais jovens. Em cenário construído para os agonistas do receptor de GLP-1, os autores estimam reduções adicionais de mortalidade acumulada entre 3 e 5 por cento ao longo de vinte anos para a faixa de 20 a 59 anos. Em modelos animais, a remoção de células senescentes elevou a longevidade máxima em até 37 por cento e o transplante de células-tronco hipotalâmicas ampliou a vida saudável em cerca de 25 por cento. O cenário extremo apresentado combina gerofármacos e projeta acréscimo de 11,7 anos de expectativa de vida para uma população que inicie tratamento aos 65 anos.
As limitações são reconhecidas pelos próprios autores.

A tradução de resultados obtidos em camundongos para seres humanos permanece incerta, os cenários farmacológicos são ilustrativos e não previsões, e a projeção de política pública para o National Health Service é hipotética. Para o atuário brasileiro, o valor da edição está menos nos números britânicos e mais na estrutura do argumento. Um ganho de 11,7 anos aos 65 anos, ainda que improvável, extrapola qualquer choque de longevidade calibrado pelos regimes prudenciais correntes, o que recomenda tratar longevidade farmacológica como cenário de teste de estresse autônomo, e não como perturbação marginal da tábua. A evidência sobre desigualdade de expectativa de vida saudável, por sua vez, reforça a inadequação de hipóteses únicas de mortalidade aplicadas a populações socioeconomicamente heterogêneas, questão que atinge diretamente entidades fechadas de previdência complementar brasileiras com massas de patrocínio diversificado.