Banco Central eleva projeção do PIB para 2% em 2026

O Banco Central entregou nesta quinta-feira, 25 de junho, um diagnóstico que resume a contradição em que vive a economia brasileira em 2026: a atividade vai melhor do que se esperava, e a inflação, também. O problema é que apenas a primeira parte dessa frase é uma boa notícia.
No Relatório de Política Monetária (RPM), o documento trimestral que substituiu o antigo Relatório de Inflação, a autoridade monetária elevou de 1,6% para 2% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto neste ano. A revisão para cima, de quatro décimos, foi puxada por dois fatores que o próprio BC fez questão de detalhar. Primeiro, a surpresa positiva no resultado do primeiro trimestre, que veio mais forte do que os modelos previam. Segundo, a melhora das perspectivas para a agropecuária e para a indústria extrativa, dois setores que costumam mover o ponteiro do PIB brasileiro com força quando a safra e os preços de commodities ajudam.
Há uma camada adicional nessa leitura que o relatório não esconde: parte do fôlego da economia vem de estímulos. O Banco Central aponta que o maior dinamismo da demanda interna e dos setores mais sensíveis ao ciclo econômico está associado, em boa medida, a estímulos de natureza fiscal e creditícia. Em bom português, o governo está injetando recursos e crédito na veia da economia, e isso aparece no PIB. O detalhe incômodo, para quem precisa controlar preços, é que economia aquecida costuma significar inflação mais resistente.
E aqui entra a parte azeda do relatório. O BC informou que a probabilidade de a inflação ultrapassar o teto da meta em 2026 disparou. No relatório anterior, divulgado em março, essa probabilidade estava em 30%. Agora subiu para 79%. É um salto brutal em três meses, e dá a dimensão de como o cenário se deteriorou no segundo trimestre. A meta de inflação no Brasil é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo, o que coloca o teto em 4,5%. Pela conta do próprio Banco Central, hoje é mais provável que a inflação fure esse teto do que que fique dentro dele.
Os números do cenário de referência ajudam a entender o pessimismo. Nesse cenário, que segue as projeções de mercado para os juros, a inflação em 12 meses fecha o segundo trimestre em 4,8%, permanece em 4,8% no terceiro trimestre e encerra 2026 em 5,2%. Só a partir de 2027 a trajetória começa a ceder de verdade, recuando gradualmente para 3,7% no fim do próximo ano, 3,2% no primeiro trimestre de 2028 e 3,1% no fim de 2028. Ou seja, na visão da autoridade monetária, o país vai conviver com inflação acima do teto por mais de dois trimestres seguidos antes de qualquer alívio mais consistente.
O dado mais recente reforça esse retrato. Em maio, o IPCA registrou alta de 0,58%, o que levou a inflação acumulada em doze meses para 4,72%, já acima do limite superior do intervalo de tolerância fixado pelo Conselho Monetário Nacional. Não é mais uma ameaça projetada para o futuro: o teto já foi rompido no presente.
Vale a comparação com o que o mercado pensa e com o que a própria Fazenda projeta, porque as divergências dizem muito. O Ministério da Fazenda, em estimativa de maio, trabalhava com expansão de 2,3% para o PIB de 2026, número mais otimista do que os 2% do Banco Central. Já o mercado financeiro, no boletim Focus mais recente, projeta crescimento de 1,98% para o ano, praticamente colado no número do BC. Esse alinhamento entre Focus e Banco Central em torno de 2% sugere que a revisão para cima do crescimento já estava razoavelmente precificada pelos analistas.
O que essas projeções carregam de subtexto é um dilema clássico de política monetária. Quando a economia surpreende para cima e a inflação resiste, o espaço para cortar juros encolhe. O Banco Central vinha reduzindo a Selic, que está em 14,25% ao ano após o corte de junho, mas um quadro de atividade firme e inflação acima do teto trabalha contra a continuidade desse afrouxamento no ritmo que o mercado gostaria.
Há ainda o componente externo, que o relatório trata com cautela. As pressões sobre os preços vêm de uma combinação de fatores internos e externos. No campo externo, o conflito no Oriente Médio empurrou os preços de combustíveis e de alimentos, dois itens que pesam diretamente no bolso do brasileiro e na inflação cheia. Choques de oferta desse tipo são especialmente difíceis de combater com juros, porque não nascem do excesso de demanda, mas de uma restrição na produção e no transporte de bens essenciais. O BC reconhece esse limite, mas insiste que precisa manter postura firme para impedir que esses choques contaminem as expectativas de inflação para os anos seguintes.
A reação dos mercados ao relatório foi até relativamente construtiva no pregão da quinta. O Ibovespa operou em alta de cerca de 1% nos primeiros negócios do dia 25, na casa dos 172,6 mil pontos, e chegou a superar os 173 mil pontos no melhor momento da sessão, com apoio principalmente das ações de bancos. Investidores digeriam tanto as novas projeções do Banco Central quanto os dados de inflação. A leitura do mercado parece ter sido a de que, apesar do tom duro sobre preços, a revisão do crescimento e a perspectiva de que a inflação começa a ceder em 2027 dão algum conforto.
A pergunta que fica para os próximos meses é se o Banco Central conseguirá conciliar duas missões que estão puxando em direções opostas. De um lado, uma economia que cresce 2%, sustentada por estímulos e por setores que vão bem. De outro, uma inflação que já furou o teto e que, pela conta do próprio BC, tem 79% de chance de fechar o ano acima dele. Essa tensão é o que vai definir o ritmo da Selic no segundo semestre, e o relatório desta quinta deixou claro que a margem para erro é pequena.