Menos negócios, mais capital por operação: o M&A brasileiro entra em fase seletiva

O mercado brasileiro de fusões e aquisições abriu 2026 trocando volume por valor. No primeiro trimestre, o país registrou 256 operações, queda de 43% em relação ao mesmo período do ano anterior. O valor agregado, porém, foi na direção oposta e disparou 114%, alcançando US$ 17,7 bilhões, segundo levantamento da Aon em parceria com a TTR Data e a Datasite. A síntese, repetida por quem opera no setor, cabe em uma frase: menos negócios, mais capital por operação. Para o líder de M&A da Aon no Brasil, André Nogueira, trata-se de uma mudança de prioridades, com investidores migrando da quantidade para a qualidade dos ativos.
A leitura é coerente com o pano de fundo macroeconômico. Juros ainda altos por período prolongado encareceram o capital e travaram negociações ao longo de 2025, alargando a distância entre o que vendedores pediam e o que compradores aceitavam pagar. A perspectiva de afrouxamento gradual da política monetária, somada à transição da reforma tributária e ao avanço da inteligência artificial nos processos de negociação, recolocou o crescimento não orgânico no radar. O ciclo eleitoral acrescenta cautela à conta, mas não interrompeu o fluxo de anúncios. A semana entre 8 e 15 de junho produziu uma boa amostra do apetite seletivo do mercado.
No setor de energia, a Petrobras informou em 10 de junho a celebração de contrato com a Equinor para aquisição de 50% de participação no bloco exploratório Itaimbezinho, no offshore da Bacia de Campos. A operadora do ativo segue sendo a Equinor, e o consórcio passa a contar também com a Pré-Sal Petróleo na gestão do contrato de partilha. A estatal enquadrou o movimento no Plano de Negócios 2026 a 2030 e na recomposição de reservas por novas fronteiras exploratórias. A cessão será submetida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e à Agência Nacional do Petróleo.
No consumo, a Catupiry anunciou, também em 10 de junho, a compra das operações brasileiras da norte-americana Leprino Foods, por meio da aquisição da Lactojara Laticínios. A Leprino é líder global em muçarela e fornecedora de ingredientes lácteos para o food service. Com o negócio, a fabricante do requeijão amplia portfólio em categorias de maior valor agregado. Os valores não foram divulgados e a conclusão depende de aval do Cade. No mesmo dia, a Boa Lion, joint venture entre Grupo Globo e MGM Resorts responsável pela BetMGM no país, fechou a compra de 100% da Bingão do Brasil, empresa de vídeo-bingo online em fase pré-operacional, em movimento amparado pela Lei nº 14.790, de 2023, que regulamentou as apostas. A operação também segue para o Cade.
No varejo alimentar, prossegue o desmonte da DMA Distribuidora, cujos ativos vêm sendo absorvidos por diferentes compradores regionais. O Grupo RedeCompras anunciou a aquisição de duas unidades do Brasil Atacarejo na Paraíba, com contratos assinados em maio e submetidos à análise concorrencial. Cada loja será examinada separadamente pela autarquia e só muda de mãos após aprovação, enquanto a rede mineira Supermercados BH já obteve, semanas antes, sinal verde sem restrições para incorporar 45 operações do mesmo grupo. O caso ilustra um traço do middle market brasileiro, em que companhias com faturamento entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões concentram boa parte das transações e a consolidação regional avança operação a operação.
A presença de capital estrangeiro reforça a exigência de governança. Operações anunciadas no início do ano, como a compra da Dimensa pela porto-riquenha Evertec por R$ 950 milhões, com fechamento previsto para o segundo trimestre, mostram investidores internacionais dispostos a pagar prêmio por ativos com receita recorrente, compliance rigoroso e estrutura societária transparente. O recado dos assessores é uniforme: o comprador global vê o Brasil como mercado estratégico, mas chega com padrões de diligência mais duros.
É aqui que a perspectiva atuarial entra em cena, e costuma ser subestimada. Em transações que envolvem passivos de longo prazo, a auditoria contábil tradicional não enxerga tudo. Obrigações de benefícios pós-emprego, planos de saúde de aposentados, garantias previdenciárias e provisões técnicas em operadoras de saúde precisam de avaliação atuarial específica, sob a régua do IAS 19 e do CPC 33 em ambiente corporativo, ou das normas da ANS e da Previc quando o ativo é uma operadora ou uma entidade de previdência. Uma due diligence atuarial bem-feita mede o tamanho real do passivo, testa a aderência das premissas e identifica contingências que não aparecem no release de imprensa nem no balanço resumido. Em deals de saúde e de empresas com fundo de pensão patrocinado, esse é justamente o ponto onde valuations otimistas encontram a realidade.
Os números mais amplos sustentam o diagnóstico de seletividade. Pesquisa da KPMG contabilizou centenas de operações ao longo de 2025, com a tecnologia da informação, as instituições financeiras e a infraestrutura no topo. O private equity ampliou participação, sinal de que há capital disciplinado à espera de ativos bem-geridos. O retrato de 2026 que emerge da semana é o de um mercado mais técnico, em que o sucesso de uma transação se decide menos no anúncio bilionário e mais na qualidade da diligência, na clareza das regras de governança pós-fechamento e na correta mensuração daquilo que não cabe em uma planilha de fluxo de caixa.