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Equatorial leva 30% da Copasa por R$ 5,6 bilhões

junho 11, 2026 · Investimentos

A Equatorial Energia (EQTL3) anunciou, nesta quinta-feira (11 de junho de 2026), a aquisição de 114.075.920 ações da Copasa, equivalentes a 30% do capital total da companhia de saneamento de Minas Gerais, por R$ 5,593 bilhões — o que corresponde a R$ 49,03 por ação. A operação prevê ainda uma tranche adicional no mercado que pode elevar a fatia total da Equatorial para até 42,62% do capital, sujeita a aprovações regulatórias e ao cumprimento de condições precedentes. É a transação mais relevante da semana no mercado brasileiro de fusões e aquisições e reposiciona o grupo, tradicionalmente do setor elétrico, como protagonista também no saneamento.

A estrutura do negócio revela o cuidado das partes em equilibrar controle privado e interesse público. Após a oferta, a configuração societária prevista é de Equatorial com 30%, o Estado de Minas Gerais com 5% e os demais acionistas com 65%. Um acordo de acionistas assegura ao Estado poder de veto sobre matérias sensíveis — programa de investimentos, aumentos e reduções de capital, alienações relevantes de ativos, política de dividendos e reorganizações societárias — até que ocorra uma de três condições: a redução da participação estadual para menos de 5%, a chegada de dezembro de 2033 ou o atingimento das metas de universalização previstas para aquele ano. A engenharia inclui ainda um lock-up integral sobre as ações adquiridas: metade fica bloqueada por quatro anos, até junho de 2030, e a outra metade até dezembro de 2033 ou o cumprimento das metas, o que vier primeiro. Há também a previsão de uma multa de R$ 50 milhões, depositada em conta escrow, que pode ser usada para rescindir o acordo e retirar os direitos de veto do Estado, preservando-se, nesse caso, o estatuto, o lock-up e o acordo de não concorrência.

Os números da Copasa ajudam a explicar o apetite. Nos doze meses encerrados no primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou EBITDA ajustado de R$ 2,927 bilhões, receita líquida ajustada de R$ 7,469 bilhões e lucro líquido de R$ 1,355 bilhão, com CAPEX de R$ 3,072 bilhões. A alavancagem estava em 2,4 vezes dívida líquida/EBITDA, com rating AAA(br) em escala nacional, e o índice de distribuição de dividendos (payout) dos últimos doze meses foi de 62,7% — uma combinação de geração de caixa robusta, grau de investimento e remuneração consistente ao acionista. Do lado da compradora, a aquisição será financiada por dívida, com impacto estimado de 0,3 vez na alavancagem consolidada: a dívida líquida pró-forma passaria de R$ 44,3 bilhões para R$ 49,9 bilhões e o múltiplo dívida líquida/EBITDA do grupo subiria de 2,66 para 2,93 vezes — patamar que exige disciplina de integração e captura efetiva de sinergias para não pressionar os covenants.

O cronograma indicativo é apertado e típico de operações de mercado: definição de preço em 11 de junho, liquidação financeira em 16 de junho, protocolo do ato de concentração ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) no dia seguinte, análise sob rito sumário, assembleia geral extraordinária em até 76 dias e posse dos novos membros da diretoria em data a definir. A submissão ao CADE é etapa obrigatória, mas, por se tratar de mercados regionais de saneamento e de um adquirente sem sobreposição direta na geografia mineira, o rito sumário tende a abreviar a análise concorrencial.

A transação chega em um momento de virada para o mercado de M&A no Brasil. Depois de um período marcado por valuations pressionados e negociações travadas pelo custo elevado do capital — com a Selic em 15% —, a perspectiva de afrouxamento monetário e o retorno gradual da liquidez recolocaram o crescimento não orgânico no radar de empresas e investidores. Levantamentos da KPMG contabilizaram centenas de operações no primeiro semestre do ciclo anterior, e o biênio recente acumulou mais de mil transações, com participação crescente de private equity. O consenso entre assessores é de que o novo ciclo será mais seletivo: prevalecem teses com lógica industrial clara, sinergia defensável e disciplina de integração, com menos tolerância a ativos mal organizados e estruturas societárias nebulosas.

O saneamento é, hoje, um dos vetores mais nítidos dessa consolidação. O Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020) estabeleceu metas de universalização — 99% de cobertura de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033 — que demandam volume expressivo de investimento e favorecem operadores com capacidade de execução de CAPEX e acesso a capital. A entrada da Equatorial na Copasa reforça a tese de que grupos de infraestrutura com histórico em concessões reguladas migram para o saneamento em busca de ativos com fluxo de caixa previsível e marco regulatório maduro.

Para quem assessora esse tipo de operação, o caso Copasa é também um lembrete do peso da due diligence em transações de controle compartilhado. A precificação de R$ 49,03 por ação, as travas de lock-up, o escrow e os gatilhos vinculados a metas de universalização traduzem, em cláusulas contratuais, a alocação de riscos identificados na avaliação. Em um ciclo mais exigente, a capacidade de comprovar valor e mapear passivos contingentes na diligência — e não apenas a tese estratégica — tende a separar as operações que prosperam daquelas que decepcionam após o fechamento.