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Entrevista: O papel do atuário na gestão dos riscos hídricos globais

person holding clear glass ball

Photo by Arthur Ogleznev on Pexels.com

Recentemente, o IAA – International Actuarial Association, publicou um estudo chamado “Sink or Swim” , apresentando um panorama técnico e profundo sobre os riscos relacionados à água no mundo, situando-os no contexto atuarial e evidenciando suas implicações multissetoriais. Para entender melhor o que significa esse estudo e quais são as oportunidades para o mercado atuarial, conversamos com a sócia da Assistants Consultoria, Andrea Mente. A seguir a nossa entrevista completa:

Blog Mundo Atuarial: Boa tarde Andrea. Para começar, qual seria a definição técnica de risco hídrico?

Andrea Mente, da Assistants

Andrea Mente: Risco hídrico é a combinação de ameaças relacionadas à disponibilidade, qualidade e gestão da água. Isso inclui tanto eventos chamados “agudos”, como enchentes e secas, quanto riscos chamados “crônicos”, como poluição da água, degradação de ecossistemas e falhas de infraestrutura.

Blog Mundo Atuarial: Por que os riscos hídricos são considerados sistêmicos e não apenas ambientais?

Andrea Mente: Isso acontece porque eles afetam múltiplos setores econômicos ao mesmo tempo: por exemplo agricultura, indústria, energia, saúde, etc. Além disso, há implicações sociais, geopolíticas e financeiras. Essa interdependência entre os setores faz da água uma variável crítica em análises de risco.

Blog Mundo Atuarial: De que forma isso se relaciona com a atuação dos atuários?

Andrea Mente: Eu costumo dizer que aonde há risco, deveria haver um atuário trabalhando. Em relação aos riscos ambientais ou, especificamente, o caso dos riscos hídricos, o impacto é direto e tem sido crescente. Atuários precisam incorporar esses riscos em suas análises de precificação, solvência, gestão de reservas, modelagem de cenários e projeções de longo prazo, principalmente em seguros, pensões e investimentos.

Blog Mundo Atuarial: Quais são os principais tipos de risco hídrico identificados no relatório da IAA?

Andrea Mente: O relatório traz três grandes categorias: escassez de água (no caso de secas e estresse hídrico), excesso (por exemplo enchentes, tempestades, tsunamis) e má qualidade da água (como poluição, contaminação, salinização). Além disso, há os riscos de governança, infraestrutura e distribuição desigual do recurso.

Blog Mundo Atuarial: Como esses riscos podem afetar os setores de seguros ou saúde, por exemplo?

Andrea Mente: Esses não são os únicos setores impactados. Mas vamos começar pela área securitária: as perdas decorrentes de eventos hídricos extremos aumentam as indenizações em seguros patrimoniais, seguros agrícolas e até mesmo nos seguros de vida. Já na área da saúde, a escassez ou contaminação da água, por exemplo, pode elevar os casos de doenças infecciosas, desnutrição, estresse mental e problemas respiratórios, especialmente em regiões mais vulneráveis. Ampliando ainda as consequências, temos impactos também em investimentos. Por exemplo: empresas expostas a riscos hídricos podem sofrer quedas de produção, desvalorização de ativos e, em alguns casos, até litígios regulatórios. Imagina o trabalho para calcular todas essas variáveis em uma modelagem atuarial (risos).

Blog Mundo Atuarial: Bom… imagino que também exista então um impacto social nisso…

Andrea Mente: Com certeza. Imagine, por exemplo, a desigualdade que existe no acesso à água em países em desenvolvimento, como o nosso. Esse é um dos fatores que agrava vulnerabilidades sociais. As populações marginalizadas ou aquelas residentes em áreas de maior risco, enfrentam maior incidência de doenças, insegurança alimentar e até migração forçada. Isso gera pressões sociais que impactam diretamente as políticas públicas e alteram a composição demográfica das regiões com o passar dos anos.

Blog Mundo Atuarial: O relatório menciona o conceito de “água como risco climático”. Você pode explicar melhor esse conceito?

Andrea Mente: Ah sim, isso é interessante. As alterações climáticas que temos percebido recentemente aceleram, por exemplo, o derretimento de geleiras, elevam o nível do mar e intensificam eventos extremos. Tudo isso vai modificando a dinâmica hídrica global e ampliando os riscos associados à água. Percebe como tudo está relacionado?

Blog Mundo Atuarial: Pois é. Parece que não temos muito para onde correr. Há alguma região do mundo imune a esses riscos?

Andrea Mente: (risos) Infelizmente não. Cada região do globo enfrenta uma combinação distinta de riscos. A Europa tem sofrido com enchentes; o sul da Ásia com escassez de água, e por aí vai. Até países com infraestrutura avançada enfrentam problemas de gestão hídrica, como o Reino Unido.

Blog Mundo Atuarial: Há algo prático que os atuários possam fazer para lidar com isso?

Andrea Mente: Olha… nós podemos prever os riscos, com base em evidências quantitativas, e desenvolver modelos de redução de danos. Podemos incorporar variáveis hídricas nas modelagens, desenvolver seguros paramétricos, até liderar avaliações de impacto em investimentos. Acredito que podemos elaborar relatórios de sustentabilidade e influenciar políticas públicas mais eficientes.

Blog Mundo Atuarial: O relatório sugere a necessidade de novos produtos financeiros. Poderia comentar quais produtos seriam esses?

Andrea Mente: O relatório do IAA aborda oportunidades de desenvolvimento de produtos que incentivem práticas sustentáveis, como títulos verdes voltados a infraestrutura de água e investimentos com foco em reuso, dessalinização ou irrigação eficiente.

Blog Mundo Atuarial: Há exemplos bem-sucedidos de adaptação ou mitigação que podem ser usados como parâmetros?

Andrea Mente: Um exemplo interessante é a reintrodução de castores no Reino Unido, que ajudaram a reduzir riscos de enchentes. Os castores constroem represas com galhos e lama, criando uma série de pequenos lagos ao longo dos cursos d’água. Essas represas retardam o fluxo da água e aumentam a infiltração no solo. Com isso, pequenos vilarejos ficaram menos expostos a inundações repentinas.

Blog Mundo Atuarial: E a tecnologia, poderia ajudar?

Andrea Mente: Sim, são vários exemplos citados no relatório, como tecnologias de reuso, dessalinização, sistemas de previsão hidrológica. Todos eles são ferramentas poderosas para melhorar a gestão e reduzir os impactos dos riscos hídricos.

Blog Mundo Atuarial: O relatório faz alguma recomendação direta à profissão atuarial?

Andrea Mente: Faz sim. A IAA recomenda que os riscos hídricos sejam incorporados ao currículo de desenvolvimento profissional, que sejam discutidos em fóruns internacionais e que os atuários ampliem sua atuação para incluir a sustentabilidade como eixo estratégico, o que eu acho muito promissor.

Blog Mundo Atuarial: Para finalizar, o que o futuro reserva para o papel dos atuários nesse contexto?

Andrea Mente: Acredito que teremos um campo muito amplo de atuação à nossa frente. Devemos nos posicionar como profissionais essenciais nessa transição para uma economia resiliente, equilibrando rentabilidade e responsabilidade socioambiental. Esse é o futuro.

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