Copom deve elevar Selic a 9,25%

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Se por um lado as expectativas inflacionárias saíram de controle e a inflação corrente se mantém em níveis bastante elevados, por outro a atividade econômica dá sinais cada vez mais claros de desaceleração e os temores em torno de um 2022 ainda mais desafiador se avolumaram. O contexto está dado para a última reunião deste ano do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. E, embora o consenso do mercado aponte para uma elevação de 1,5 ponto percentual da Selic, as divergências entre analistas quanto à postura que o colegiado deveria adotar continuam profundas.

Em pesquisa conduzida pelo Valor com 111 instituições financeiras e consultorias entre 29 de novembro e 3 de dezembro, todas esperam uma elevação de 1,5 ponto no juro básico, que, assim, terminaria o ano em 9,25%. A única exceção é a CM Capital Markets, que projeta uma alta de 1,75 ponto. Já em relação ao fim do atual ciclo de aperto, o ponto médio das estimativas aponta para a Selic em 11,75%. Apesar do consenso quanto à manutenção do ritmo de alta da Selic na reunião desta semana, há, no mercado, forte divisão das opiniões quanto ao que o BC deveria fazer daqui em diante. Parte dos analistas acredita que a fragilidade exibida pela economia deveria levar o Copom a pisar no freio nas primeiras reuniões de 2022.

Outra ala, porém, mostra preocupação especial com a desancoragem das expectativas inflacionárias e, por isso, defende que o Copom mantenha postura mais dura no próximo ano. Nesse contexto, o Valor também questionou os agentes do mercado sobre as projeções de inflação esperadas para este ano, para 2022 e para 2023. A mediana das estimativas coletadas aponta para o IPCA em 10,2% no fim deste ano, em 5% em dezembro de 2022, ou seja, no teto da meta, e em 3,5% em 2023, acima, portanto, do centro da meta.

A economista-chefe do Credit Suisse Brasil, Solange Srour, acredita que a manutenção do ritmo “exige uma mudança de 180 graus na comunicação, uma alteração muito forte, que eu não acho que esteja acontecendo e nem que vá acontecer”. Ela aponta a necessidade de alteração no diagnóstico da inflação. “Está claro que a inflação no Brasil não é temporária e o BC ainda parece comprado nessa tese, por mais que tenha reconhecido que o temporário está durando mais tempo.” Adicionalmente, o evento da incerteza fiscal e política, que não deverá ter mais clareza nos próximos 12 meses, contribui para o aumento da inflação esperada à frente, avalia. A economista, inclusive, acredita que o Copom deveria admitir uma mudança no arcabouço fiscal em sua comunicação. “Isso não deveria estar no balanço de riscos, porque já aconteceu. A mudança na regra do teto foi votada no Congresso. Essa mudança trouxe uma percepção de que a regra fiscal não é imune aos ciclos eleitorais, adicionou prêmio de risco e influenciou as expectativas de inflação”, afirma.

Para o economista-chefe do Bradesco BBI, Dalton Gardimam, um dos dilemas a ser enfrentado pelo colegiado é o fato de a inflação exceder em muito a meta neste ano e correr o risco de repetir o movimento em 2022. “O BC permitiria isso acontecer com a sinalização de que o que ele fez até agora está adequado? Eu creio que não é suficiente, embora ir para uma postura extraordinariamente agressiva, com um ‘overkill’ [exagero], possa significar um impacto na economia maior que o desejável”, avalia o economista. “Na medida em que o BC diz que está perseguindo a meta de 2023, pode ser que ele deixe transparecer que está relaxando com a meta de 2022. É preciso ser muito cuidadoso. O BC se aventurou em ousadia com o ‘forward guidance’ [orientação futura] no ano passado. Não tem muito mais direito de errar na comunicação. Deveria ser bem conservador.”

Consideradas as leituras mensais do IPCA de setembro e outubro, houve surpresa de 0,85 ponto no cenário básico do Copom divulgado no relatório de Inflação de setembro, o que torna a condução da política monetária mais desafiadora. “Quem está com a cabeça em aceleração [do ritmo] é por causa das expectativas de inflação, mas várias coisas influenciam as projeções. Não é um desafio ao BC que está sendo colocado. As expectativas são muito correlacionadas à inflação corrente e, como estamos no pior momento da inflação corrente, é natural que os agentes comecem a extrapolar isso para horizontes mais longos”, diz o economista-chefe da WHG, Fernando Fenolio. “Existe um grau de incerteza enorme, mas marretar a Selic agora não vai influenciar as expectativas de 2023 e de 2024”, afirma. Na visão de Fenolio, o cenário “muito ruim” que se desenha para a atividade deve limitar o apetite do BC por acelerar ainda mais o ritmo de alta da Selic, já que isso poderia causar uma recessão “ainda mais brutal” da economia. A WHG vê uma contração de 0,1% no PIB de 2022 e entre -0,5% e zero em 2023.

A economista-chefe da Canvas Capital, Camila de Faria Lima, defende, inclusive, que o Copom pode colher mais benefícios se deixar a sinalização dos próximos passos aberta. “Ainda que o BC tenha buscado aumentar a transparência, acho que há bastante coisa em aberto e que a incerteza aumentou. O BC pode preservar mais os graus de liberdade, aguardando mais para entender melhor os efeitos da defasagem da política monetária na atividade.” Ela nota que há uma alta acumulada “muito grande” de juros. Caso a alta de 1,5 ponto se confirme, o BC terá elevado a Selic em 7,25 pontos, o que já tornaria o atual ciclo o segundo maior entre todos os períodos de aperto monetário, atrás, somente, do ciclo de 2002.

O economista-chefe da Trafalgar, Guilherme Loureiro, lembra ainda que o nível de incerteza com a economia global aumentou com a variante ômicron e, assim, defende que o Copom se atenha ao atual ritmo de aperto. “O ponto central, para o BC, é agir para trazer a inflação em direção à meta”, diz. Loureiro afirma que a Selic de 12% projetada pela Trafalgar leva em conta, justamente, o quanto os modelos do BC devem indicar de alta de juros necessária para devolver a inflação à meta.

Fonte: Valor Econômico