Inflação e volatilidade abatem a previdência

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Maioria dos fundos tem retorno abaixo da inflação em 2021

A alta da inflação e a turbulência nos mercados têm deixado estragos no dinheiro guardado pelo brasileiro para a aposentadoria num ano que já não tem sido muito frutífero para a previdência privada.

A detração de desempenho é mais flagrante nos fundos de renda fixa, concentrados nos grandes bancos. Os multimercados, que investem em uma série de ativos, se saem melhor, enquanto as carteiras de ações praticamente ficaram sem defesa. Conforme levantamento da 2Investe com dados da Quantum Axis para o Valor, considerando-se os fundos de maior patrimônio na classe renda fixa dos grandes bancos, um conjunto de R$ 346,4 bilhões, nenhuma carteira supera o IPCA neste ano ou em 12 meses – os retornos variam de 4,61% e 5,27%, a -1,44% e 0,84% nesses dois intervalos, respectivamente. Só três entregaram desempenho acima do CDI. Dentre os multimercados, só uma dezena de fundos conseguiu empatar ou ficar acima do IPCA, com rentabilidade entre 7,8% e 18,71% neste ano, até o fim de outubro. Em bolsa só uma carteira se salva, de fundo que costuma trabalhar alavancado.

Foram analisados os 30 fundos dos principais bancos com maior patrimônio líquido no fechamento de outubro em cada classe e os 30 fundos de assets independentes com maior retorno no ano em cada classe. Os dados de fluxo mostram um ano de pouco crescimento. Segundo a Anbima, a captação líquida em 2021 para fundos de previdência somava R$ 5,9 bilhões até 25 de outubro. Em 12 meses, eram R$ 19,1 bilhões. Representantes do setor atribuem o resultado a reflexos da covid-19 na economia, com desemprego alto e retirada de recursos para uso no dia a dia. As estatísticas de portabilidade da Superintendência de Seguros Privados (Susep) ainda mostram os grandes bancos mais cedendo recursos do que ganhando. No conjunto, Bradesco Seguros, Brasilprev, Caixa, Itaú e Santander perderam liquidamente R$ 11,8 bilhões entre janeiro e agosto. Na captura de planos da concorrência destacam-se XP Vida e Previdência, com R$11,1 bilhões e BTG Pactual Vida e Previdência, com R$ 2,8 bilhões. Safra, com R$ 2,1 bilhões, e Icatu, com R$ 4 bilhões recebidos, perderam, na outra ponta, R$ 1,6 bilhão e R$ 3,4 bilhões, respectivamente. A Zurich Santander obteve R$ 1 bilhão via portabilidade neste ano, mas cedeu R$ 2,7 bilhões até agosto.

Segundo Luciane Effting, superintendente executiva de investimentos do Santander, o ano foi particularmente difícil para a previdência. No setor, ela diz que houve muito resgate para utilização como fluxo de caixa. “A previdência é o último recurso que o investidor lança mão por causa de todos os benefícios de longo prazo, a tributação, a não existência do come-cotas [o imposto semestral que incide nos fundos de renda fixa e multimercados líquidos].” A executiva não relaciona o movimento ao fraco desempenho das carteiras de renda fixa. O trabalho tem sido explicar ao cliente que se trata do efeito da atualização dos ativos a valor de mercado, e que isso não representa perdas para o futuro. Como os fundos de previdência têm um horizonte longo, o gestor não precisa se desfazer dos papéis num momento adverso.

“Produto de longo prazo tem oscilação, sim, mas não a gente recomenda qualquer tipo de resgate porque o investidor não vai conseguir compensar a perda em outro produto”, diz Effting. A despeito da portabilidade e dos resgates, ela cita que até outubro a captação bruta foi de R$ 11,8 bilhões. Para novembro e dezembro, a executiva prevê ingressos de mais R$ 2,6 bilhões. Para defender seu pedaço no bolo, o Santander tem complementado a grade de produtos em todas as classes, desde a renda fixa tradicional de baixa volatilidade até fundos com ativos internacionais para os diversos perfis de investidores. Com cerca de R$ 63 bilhões em ativos na previdência, o Santander manteve seus 6,4% de participação de mercado, afirma Effting. O que há de diferente agora é que o investidor que vinha migrando para multimercados e renda variável já procura mais a renda fixa. No entanto, a busca não é pela modalidade tradicional, mas por alternativas que têm crédito privado, com potencial de retorno maior. Na Brasilprev, o valor cedido via portabilidade, R$ 4,9 bilhões, também superou os aceites (R$ 1,2 bilhão).

O diretor financeiro da empresa, Jorge Ricca, diz que desde 2019 há um esforço para deixar a grade mais diversificada, principalmente com multimercados de baixa volatilidade. “Não dá para pegar o investidor acostumado à volatilidade baixa e jogá-lo num conjunto de produtos de alta volatilidade, seria como tirar as pessoas da piscina de criança para pegar uma onda no mar do Havaí.” Hoje, 30% dos mais de R$ 280 bilhões que a Brasilprev tem em PGBL e VGBL já estão em multimercados mais apimentados ou em carteiras com até 70% em ações. “Esse foi nosso compromisso no momento da pandemia, iniciar o processo de diversificação quando a taxa de juros, o custo de oportunidade, estava muito baixo. Isso nos ajudou a ter uma grade competitiva para ter uma melhor maneira de nos defender dos movimentos de portabilidade”, diz Ricca. Com o ingresso de recursos do 13º na economia, o executivo espera a melhora do fluxo para a previdência como um todo. Ele cita que muitos investidores fizeram resgates para despesas correntes diante de altas taxas de desemprego e dos reflexos da pandemia nos negócios. Houve quem também tenha recorrido à liquidez para a compra de imóveis, afirma.

Segundo Ricca, as restrições no orçamento doméstico impostas pelo período de quarentena deixaram como legado a necessidade de se construir uma poupança de longo prazo. “O cliente da previdência vai ter, de certa forma, uma renda fixa nominal com nível de taxas de juros maiores.” O fluxo que pendia mais para os multimercados, em 2022 tende a se equilibrar com as carteiras de renda fixa, prevê. O executivo afirma não ver um movimento de resgate relacionado às perdas inflacionárias ou por causa de toda a volatilidade que atingiu a renda fixa prefixada e indexada. Ricca avalia que a migração para outras classes continuará, pois é estrutural. Lembra, ainda, que a inflação é um fenômeno global e a resposta dos bancos centrais será aumentar os juros, como já se observa no Brasil. Passado o efeito da atualização dos ativos a valor de mercado, a tendência é que a volatilidade se dissipe. “O ganho real, no médio e longo prazo é a necessidade objetiva de todos os planos de previdência.”

Com uma operação mais nova de previdência na rua, o BTG Pactual tem conseguido capturar recursos principalmente de grandes instituições, “que reinavam com taxas abusivas e tiveram que se adequar”, diz Gabriel Escabin, diretor de vida e previdência da instituição. Para o executivo, muito dos resgates observados neste ano no mercado tem relação com a venda inadequada do produto, com reservas de curto prazo colocadas na previdência. Entre aportes e portabilidade, a captação líquida do BTG foi de R$ 2,9 bilhões até agosto. A expectativa é fechar o ano com R$ 6,5 bilhões, partindo de um patrimônio inicial na casa dos R$ 2 bilhões. “Há um histórico de quadruplicar a quantidade de boletas, mês a mês, entre o fim de novembro e o início de dezembro, é a ‘segunda chamada’ para aportes no PGBL”, diz, referindo-se à regra que permite deduzir a contribuição da base tributável do Imposto de Renda.

Fonte: Valor Econômico