Previdência aberta: as lições da pandemia no Brasil e EUA

Apesar de serem mercados em níveis muito diferentes de maturidade, há semelhanças interessantes

A pandemia colocou um holofote em diversas questões sociais e econômicas, mas uma delas me chamou especial atenção e diz respeito aos impactos na previdência aberta aqui no Brasil e nos Estados Unidos. Apesar de serem mercados em níveis muito diferentes de maturidade, há semelhanças interessantes e algumas lições que podemos aprender. Segundo dados da OCDE, os investimentos em previdência privada (fundos de pensão e seguros de caráter previdenciário) superam os US$ 50 trilhões em todo o mundo. A maior parcela destes recursos está ligada à economia dos Estados Unidos, que sozinhos têm a incrível marca de possuir mais de 70% das reservas mundiais de aposentadoria.

Ao longo do ano de 2020, diversas medidas foram adotadas pelo governo dos EUA por meio dos “Cares Act” (The Coronavirus Aid, Relief and Economic Security Act) na tentativa de mitigar os efeitos lesivos da pandemia de covid-19 na economia do país com base nessas reservas de aposentadoria. Dentre tais medidas, vale citar a retirada das penalidades e redução das alíquotas de imposto para resgates dos planos, bem como a possibilidade de os empregadores deixarem de realizar aportes em nome dos funcionários nos planos de previdência empresarial durante o período pandêmico.

Com tais medidas vigentes, seria de se esperar um aumento significativo dos resgates nos planos previdenciários e uma redução significativa das aplicações. Porém, o que se viu foi exatamente o contrário. Segundo o ICI (Investment Company Institute), que concentra as estatísticas do mercado de investimentos dos EUA, o valor das reservas em previdência dos cidadãos cresceu mais de 9,3% em 2020 em relação ao fechamento de 2019. Quais fatores poderiam explicar esse comportamento dos clientes de planos previdenciários nos EUA que, mesmo tendo a possibilidade de resgatar seus recursos sem penalidades, não o fizeram? Antes de responder vamos dar uma olhada no mercado brasileiro de previdência aberta.

Quando analisamos o setor de seguros previdenciários (previdência aberta), as reservas fecharam o ano de 2020 num patamar de R$ 1 trilhão, segundo dados da Fenaprevi (Federação Nacional de Vida e Previdência). E apesar de aqui não terem sido tomadas medidas semelhantes àquelas dos EUA no que tange às regras de resgate da previdência aberta, o nível de resgates aumentou em 16,5% em relação a 2019, com uma redução de 25% na captação líquida do mercado no mesmo período de análise.

Poderíamos atribuir esse efeito às condições macroeconômicas do Brasil, que são extremamente diferentes daquelas encontradas nos EUA. Porém é importante trazer à luz o fato de que nem todos os competidores do mercado de previdência perceberam esse mesmo efeito do mercado nacional e apresentaram uma diferenciação significativa. Nesse sentido, vale comparar o comportamento dos participantes de produtos previdenciários com o comportamento dos cotistas de fundos. Apesar das semelhanças com fundos, os produtos previdenciários apresentam características que incentivam o uso dos recursos em longo prazo, que, se bem exploradas num processo de venda consultivo e assessorado, podem trazer frutos relevantes não somente aos clientes, mas também ao País.

Em recente estudo publicado pelo time de análise de fundos da XP Investimentos, com base em produtos disponíveis em sua própria plataforma, demonstrou-se que, nos piores seis meses de 2020 para os mercados nacionais (de março a maio de 2020 e de setembro a novembro de 2020), as classes de fundos previdenciários de crédito privado, multimercado e renda variável tiveram oscilações em suas captações mensais sempre positivas em comparação com as classes de fundos não previdenciários equivalentes. Por exemplo, na classe de fundos de crédito privado previdenciário a média da variação da captação em relação ao patrimônio líquido dos fundos nos 6 meses apontados foi de +0,78% contra -6,7% dos fundos de crédito privado não previdenciários. Na classe de fundos multimercado previdenciários, a variação foi de +2,9%, contra -1,54% nos fundos não previdenciários, enquanto que na classe fundos de renda variável a variação dos previdenciários foi de 2,81%, contra -0,26%.

Os fatores que podem definir esse comportamento dos clientes de planos previdenciários da XP, assim como dos clientes nos EUA, em relação a seus recursos investidos para o longo prazo são: maturidade e educação financeira. Esses fatores só podem ser atingidos, em ambos os casos, com o suporte de um modelo de negócios baseado na plena oferta de produtos, na personalização e numa rede de parceiros especializados e capacitados para dar todo suporte à decisão de compra e investimento nos produtos de previdência. Nos Estados Unidos é de longa data a existência dos profissionais especializados em planejamento de aposentadoria, os chamados “retirement planners”. No Brasil, essa atividade apresenta grandes oportunidades que, se bem exploradas, podem elevar o impacto de nossa previdência privada aberta aos mesmos níveis existentes naquele país.

Roberto Teixeira é sócio da XP Inc e head da XP Seguros
E-mail roberto.teixeira@xpi.com.br

Fonte: Valor Econômico