Pandemia derruba resultado do setor de seguros no 2º tri

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Desempenho operacional de companhias listadas é o menor desde o terceiro trimestre de 2016

O segundo trimestre vai entrar para a história recente dos seguros como um dos momentos mais desafiadores dessa indústria. Os meses de abril a junho deste ano marcaram o pior resultado operacional do setor em um período trimestral desde o terceiro trimestre de 2016. Esse é o quadro desenhado quando se comparam os números consolidados das companhias listadas na bolsa – BB Seguridade, Caixa Seguridade, Porto Seguro e SulAmérica – mais o ressegurador IRB e a Bradesco Seguros.


O resultado operacional desse grupo atingiu pouco menos de R$ 2,1 bilhões no segundo trimestre, uma cifra 46,5% abaixo dos três primeiros meses do ano. O valor, nominalmente, só fica um pouco acima do terceiro trimestre de 2016, quando o país atravessava a maior crise da era pós-plano Real. Mesmo assim, o R$ 1,9 bilhão obtido por esse conjunto de empresas há cinco anos, se fosse corrigido pela inflação do período, subiria para R$ 2,3 bilhões, ou seja, estaria acima do volume registrado entre abril e junho deste ano.

Na comparação com o segundo trimestre de 2020, que coincidiu com o início das medidas de combate à pandemia, em março, a queda do desempenho operacional é menor, mas ainda assim, expressiva: recuo de 35,3%. A redução reflete, um ano depois, o que se esperava fosse acontecer no início da crise sanitária. O estrago nos balanços ocorreu diante do alto volume financeiro de indenizações às famílias de vítimas da covid-19, em produtos de cobertura de pessoas, e os custos de tratamentos de doentes, no caso do seguro saúde.

O lucro líquido das seguradoras também acabou afetado pelo cenário da segunda onda. No acumulado, o grupo obteve R$ 1,89 bilhão no segundo trimestre deste ano. Trata-se de uma queda de 45% ante os primeiros meses de 2021. Na comparação com igual período de 2020, o recuo atinge 29,7%. Para se ter uma ideia do impacto da segunda onda, o maior grupo segurador privado do país, Bradesco Seguros, amargou uma queda de 49,8% no resultado das operações de seguros, previdência e capitalização na comparação com o primeiro trimestre do ano. O lucro líquido recorrente caiu 59,8% na mesma base, para R$ 655 milhões entre abril e junho de 2021.

O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Jr, citou, em teleconferência com analistas, que os custos relacionados à covid-19 somaram R$ 4,8 bilhões desde o início da pandemia em março do ano passado. Desse montante, cerca de R$ 3 bilhões ocorreram no primeiro semestre de 2021. O diretor de finanças e relações com investidores da BB Seguridade, Rafael Sperendio, reportou situação parecida na holding de seguros, previdência e capitalização controlada pelo Banco do Brasil. Segundo o executivo, a companhia pagou, apenas em 2021, R$ 428 milhões em sinistros ligados à pandemia, montante maior do que o desembolsado em todo o ano de 2020.

A Caixa Seguridade, que estreou na bolsa em abril deste ano, pagou R$ 632,4 milhões no segundo trimestre em sinistros relacionados à covid. Do total, R$ 324,1 milhões se destinaram a indenizações às famílias de vítimas da doença previstas no seguro habitacional. Outros R$ 143,3 milhões foram desembolsados para beneficiários de apólices de vida e R$ 95,4 milhões para coberturas de prestamista.

A SulAmérica recebeu impacto direto do aumento de casos de covid-19 entre os beneficiários dos planos de saúde, uma vez que os produtos do gênero representam 92% das receitas do grupo. As despesas assistenciais, ou seja, consultas, exames e internações, ligadas à pandemia representaram um custo de R$468 milhões só no segundo trimestre. Ao longo de toda a pandemia, a seguradora já gastou R$ 1,7 bilhão em sinistros.

No grupo das companhias listadas do setor de seguros e resseguros, apenas Porto Seguro e IRB se mostraram mais resilientes aos efeitos da pandemia. No caso da Porto, a empresa se beneficiou da expansão de seu principal produto, o seguro auto. “Atingimos no segundo trimestre a maior frota segurada de toda a história da Porto”, afirmou ao Valor o CEO Roberto Santos. A quantidade de veículos cobertos atingiu 5,6 milhões. Houve um acréscimo de 386 mil automóveis e utilitários em um ano.

O IRB, por sua vez, tem pouca exposição a riscos de seguro de vida, segundo o CEO interino, Wilson Toneto. O ressegurador mantém, de acordo com o executivo, poucos contratos relacionados ao segmento de coberturas pessoais e apenas no portfólio internacional. Com isso, o impacto da pandemia tem se mostrado reduzido quando se compara com a carteira como um todo. Da mesma forma que puxou para baixo o resultado operacional, a covid-19 também impulsionou os índices de sinistralidade. A Porto, por exemplo, apesar da expansão no auto, amargou um forte aumento da sinistralidade no seguro de vida. O indicador desse produtos subiu 38,3 pontos percentuais ante o segundo trimestre do ano passado, a 75,4%. Ironicamente, a baixíssima sinistralidade de 37% vista um ano atrás refletiu as medidas de combate à pandemia, com a imposição de restrições à mobilidade. Com isso, houve uma forte redução de acidentes, o que ajudou a sustentar os resultados das companhias do setor no início da crise sanitária.

Na BB Seguridade, a sinistralidade aumentou 13,3 pontos percentuais ante o primeiro trimestre e 19,7 pontos na comparação com o segundo trimestre de 2020. A companhia reconheceu, no relatório de resultados, que houve “agravamento da crise sanitária, com o pico de mortes por covid-19 desde o início da pandemia sendo atingido no segundo trimestre de 2021”.

Na SulAmérica, a sinistralidade geral avançou 16,7 pontos percentuais em bases anuais, para 85,8% no fim de junho. Comparada ao primeiro trimestre, o crescimento foi de 5,2 pontos. No segmento vida, o índice saltou ainda mais alto, para 90,6%. Esse percentual representa um acréscimo de 34,8 pontos frente ao segundo trimestre de 2020. Não por acaso, a companhia classificou os últimos três meses da primeira metade deste ano como um “período atípico”.

Segundo a seguradora, o segundo trimestre “combinou patamares ainda elevados de internações e procedimentos relacionados à covid-19 e, também, uma importante retomada de demais procedimentos eletivos e não urgentes”. Esse aumento de demanda por consultas, exames e outras práticas médicas já era esperado, mas houve uma aceleração em meio ao avanço da vacinação. Ao longo do ano passado, houve adiamentos, e a busca ficou represada por conta da pandemia. Apesar do risco da disseminação da variante delta do coronavírus, que tem levado a volta da alta de casos da doença em vários países, as seguradoras têm expressado confiança na melhora dos resultados, conforme a vacinação avança no Brasil. O presidente do Bradesco reforçou na apresentação dos resultados sua confiança em uma melhora das condições operacionais, conforme o processo de imunização se consolida no país. Na visão de Lazari, os resultados devem se aproximar da normalização a partir do quarto trimestre.

O setor, porém, ainda deve sentir os impactos da pandemia no intervalo entre julho e setembro, mesmo que de modo mais atenuado na comparação com o período anterior. De acordo com Sperendio, da BB Seguridade, “o terceiro trimestre deve ainda mostrar algum impacto da pandemia, mas no quarto a sinistralidade deve voltar aos patamares históricos”.

O vice-presidente financeiro da Caixa Seguridade, Eduardo Oliveira, compartilhou visão semelhante na apresentação dos resultados do último trimestre. “Os resultados da companhia ainda devem sofrer os impactos da pandemia no terceiro trimestre, caminhando para uma normalização no quarto ou ainda no primeiro trimestre de 2022.” De acordo com Oliveira, o pico da pandemia ocorreu entre abril e maio. “Na segunda metade de junho começou a ter uma queda [de casos], que continuou em julho”, afirmou. “O ritmo de redução [de óbitos e casos] tem sido mais rápido do que estimávamos anteriormente”, acrescentou.

Fonte: Valor Econômico