Como o Rio Grande do Sul entrou no foco de grandes investimentos na saúde privada

A aquisição do Centro Clínico Gaúcho (CCG) pelo Grupo NotreDame Intermédica (GNDI), anunciada no começo de junho e avaliada em R$ 1,06 bilhão, é vista como primeiro passo de uma movimentação que deve alterar as estruturas do mercado de saúde no Estado. Agora, ativos hospitalares e operadoras do Rio Grande do Sul ingressam em definitivo na mira dos grandes players nacionais de capital aberto que, em 2020, a despeito da pandemia, giraram no país US$ 1,088 bilhão em 60 negociações de M&As (fusões e aquisições, na sigla em inglês), conforme levantamento da consultoria RGS Partners.

— Buscamos sempre oportunidades para poder crescer onde atuamos. Não foi compra isolada, virá acompanhada de outras — afirma o diretor de novos negócios do GNDI, Pedro Calandrino.

A transformação do setor por meio de fusões e aquisições tomou novo ritmo em 2015, quando a lei federal autorizou a utilização de capital estrangeiro na assistência à saúde. Em 2010, segundo dados do Cadastro de Operadoras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e do Ministério da Saúde, o Brasil contava com 1.045 operadoras médico-hospitalares. Hoje, são 709 — redução de mais de um terço no período.

Por outro lado, a receita total das contraprestações dessas mesmas operadoras avançou em 151,6% — de R$ 84,8 bilhões, em 2011, para R$ 213,4 bilhões, em 2019, ano anterior à pandemia. Ou seja, há mais dinheiro em circulação e quantidade menor de concorrentes em atividade.  

Outro dado da ANS mostra o apetite. Em 2011, R$ 9,5 bilhões dos ativos hospitalares estavam nas mãos dos planos de saúde. Dez anos depois, são R$ 33,1 bilhões, crescimento de 247,3%.

A nova concorrência no Estado é vista com bons olhos por entidades representativas do setor. O vice-presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Marcos Rovinski, por exemplo, diz que a movimentação vai ao encontro dos interesses dos médicos gaúchos, porque amplia as possibilidades de atuação.

— Esta proposta de gestão verticalizada, somada com a abertura de hospitais, é muito bem avaliada, pois assegura trabalho e mais atendimento médico para a população. Portanto, temos de saudar que venham essas empresas. E, nós, no sindicato, vamos monitorar para que ofereçam salários e condições adequadas ao exercício da profissão — resume.

Captações

Em 2018, dois grandes grupos brasileiros, já aportados por dinheiro de fundos do Exterior, foram à bolsa de valores B3. Entre eles, estava o GNDI, que em 19 de abril daquele ano captou R$ 2,7 bilhões, por ocasião do lançamento inicial de suas ações (IPO, na sigla em inglês). Cinco dias depois, a Hapvida abocanharia R$ 3,4 bilhões no seu IPO.  

Foram  menos de três anos para que ambas anunciassem sua fusão numa companhia estimada em R$ 100 bilhões de valor de mercado, no final de março deste ano. A operação está autorizada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e aguarda a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A meta para o Estado, diz o diretor do GNDI, é empregar o modelo verticalizado, já adotado em outras regiões – quando o controle do hospital e dos principais planos de saúde pertencem a um mesmo grupo. Deverão ser usados como base o CCG e o Hospital Humaniza de Porto Alegre (o empreendimento está pronto, aguardando as últimas liberações para o funcionamento total da operação).

E, a partir daí, expandir a carteira. A prioridade são as cidades mais populosas. O executivo também explica que a aposta é na rede própria, por ser mais produtiva e eficiente, em razão da sinergia entre hospital e operadora.

Trocando em miúdos, o GNDI, que antes detinha carteira de 15,5 mil beneficiários no Estado, incorpora cerca de 168 mil vidas seguradas do CCG – até então, a terceira maior operadora gaúcha – e um hospital próprio, dependendo somente das últimas autorizações para sair do forno. Foi assim, com em torno de 183,5 mil segurados, que o maior player do setor de saúde no país cravou a sua bandeira no Rio Grande do Sul, respaldado por 14% de participação em um segmento que possui suas peculiaridades no RS.  

A primeira delas é a alta concentração, algo que tende a afastar negócios, principalmente os que envolvem ativos hospitalares. A segunda é a existência de um concorrente sólido, como a Unimed, detentora de uma fatia de 64% de participação e que há tempos dita as regras no mercado gaúcho. Para Calandrino, embora adote o modelo cooperativo, as Unimeds são players de mercado como outros. Ele lembra que em 2016 o GNDI adquiriu a Unimed ABC paulista.

– Compramos os ativos, o hospital, os centros médicos e a carteira de beneficiários. As Unimeds são um player como qualquer outro. É difícil saber quais são seus planos. Mas é assim que os percebemos – pontua.

Padrão de qualidade e atenção ao SUS

Na avaliação do ex-governador Antônio Britto, que atualmente responde como diretor-executivo da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), o sul do Brasil tem um padrão de qualidade na prestação de serviços e hospitais bastante qualificado.Por essa razão, afirma que o amplo movimento de incorporações, fusões e aquisições não excluirá o Estado.

— É algo nacional, envolve um mercado importante e com ativos qualificados. Parece-me óbvio prever que os próximos tempos devem trazer muitas notícias de tentativas e movimentações de fusões e aquisições — avalia.

Britto ainda chama a atenção para distorções que envolvem o processo. De acordo com ele, o fato de ser um hospital privado não anula a “enorme”, segundo o dirigente, prestação de serviços ao Sistema Único de Saúde (SUS). Britto comenta que o Brasil tem uma situação curiosa, pois o sistema é público, mas grande parte dos atendimentos é feita por hospitais privados. Por isso, sugere que se evite pensar que o hospital particular não atenderá pelo SUS, quando o que de fato ocorre é o contrário.

— Costumava brincar aí no Estado que não conheço nada mais público do que algumas Santas Casas, e nada mais privado do que algumas estatais — afirma o ex-governador.  

De olho em hospitais e prestadores de serviços

De acordo com André Trein, diretor da Bateleur, a tendência de consolidação do setor de saúde aponta para mais mudanças, em curto e médio prazos. O alvo não são só aquisições de planos de saúde, mas também de ativos de prestação de serviços com ou sem características verticalizadas.– Esta (compra da CCG) deve ter sido a primeira de uma série. A estratégia destes players é fazer compras em formato radial. Fixam uma bandeira no centro e espraiam-se cada vez mais para longe do marco inicial com aquisições que ampliam a sua área de atuação – explica o diretor.  

Segundo Trein, muito da tese de negócio por trás do GNDI e da Hapvida está calcada no fato de serem empresas que buscam racionalização e eficiência na utilização de serviços médicos.

É o que possibilita cobrar menos e oferecer planos mais acessíveis à população que não possui cobertura em saúde.

— Existe um grande mercado a ser explorado. Para ficar atento aos próximos movimentos, não basta olhar para as operadoras, mas sim para outros ativos hospitalares e de prestadores de serviços — entende Trein.

O panorama de mercado favorece novas transações, em especial no Rio Grande do Sul, onde somente 11,3%, ou 36, dos 316 hospitais existentes, são privados. No restante do país, dentre as 6,3 mil estruturas, cerca de 30%, ou 1,8 mil são particulares, aponta levantamento da Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp).

Unimed da Capital traça estratégias

Atualmente, o Rio Grande do Sul conta com 407 planos de saúde, sendo apenas 11 com mais de 50 mil beneficiários. Os números demonstram o tamanho da pulverização em um mercado regional que conta com 43,1% da população de Porto Alegre segurada, 32,6% na Região Metropolitana e somente 20,3% no Interior, segundo o Cadastro de Operadoras da ANS/MS.Mas nesse cenário chama a atenção a atuação de um player líder de mercado. Trata-se da Unimed Porto Alegre, que conta com 673 mil clientes na carteira, 6,8 mil cooperados, 1.906 colaboradores e 366 pontos de atendimento, entre serviços credenciados e próprios.

Presidente do conselho de administração da Unimed Porto Alegre, Flávio da Costa Vieira lista investimentos da cooperativa. Em 2020, por exemplo, inaugurou unidade assistencial com laboratório em Gravataí. No início de 2021, abriu outra na zona sul da Capital.  

Para os próximos meses, deve concluir um empreendimento na Zona Norte, próximo ao Triângulo da Avenida Assis Brasil. E, no ano que vem, planeja apresentar, na esquina do Parque Moinhos de Vento, o Parcão, um novo centro de prestação de serviços e assistência em saúde.

O executivo explica que, diferentemente das concorrentes, a Unimed não vai à bolsa de valores porque trabalha dentro de um modelo cooperativo. Mesmo assim, adequou-se à realidade do segmento, com preocupação de manter a solidez e, sobretudo, a posição de liderança que ocupa na Região Sul e, mais especificamente, nos 46 municípios gaúchos em que atua.

— Só temos esse tamanho graças ao trabalho dos cooperados que vivem a responsabilidade de assistir os segurados, porque a Unimed é uma empresa deles — resume Vieira.

Holding

Por isso, em 2019 foi lançada a Laçador Participações, uma holding focada em aquisições com 100% das ações nas mãos da Unimed Porto Alegre. De lá para cá, a empresa, com outras quatro Unimeds do país (Belo Horizonte, Vitória, Central Nacional e Seguros), cada uma com 20%, adquiriu a Unio Tecnologia, especializada em criação, instalação e implantação de sistemas de saúde suplementar.

Em seguida, a Unimed Porto Alegre comprou a Sulmed, por R$ 30 milhões, uma operadora de assistência médica e odontológica com 40 anos de atuação, focada em planos empresariais. Também adquiriu 25% da empresa Saúde, que trabalha com clínicas de prestação de serviços. Depois, colocou em sua carteira de ativos o laboratório Unilab, que será reposicionado e relançado nos próximos dias com o nome de Toplab.  

A ideia, afirma Vieira, é que a holding permaneça 100% Unimed Porto Alegre. Mas, como não possui o mesmo modelo cooperativo que norteia as ações da controladora, está mais exposta ao mercado, e a eventual participação em bolsa de valores não é algo descartada, acrescenta.

Fonte: GZH Economia