Pandemia acelera revolução digital no setor de Saúde

Renato Casarotti, presidente da Abrange: telessaúde traz acesso rápido a especialistas — Foto: Silvia Zamboni/Valor

O mercado de saúde brasileiro vem passando por diversas transformações, impulsionadas pela pandemia de covid-19. Pressionadas pela necessidade de reduzir custos, melhorar cuidados e a ouvir um usuário cada vez mais protagonista
diante de um mercado inovador e competitivo, empresas passaram a ampliar suas áreas de atuação e ganhar eficiência por meio de fusões e aquisições. A inteligência artificial e a telemedicina se tornaram aliadas fundamentais do negócio e ferramentas essenciais para enfrentar os novos concorrentes digitais, ao lado de integrações e parcerias entre diversos elos da cadeia. Essa transformação também resultou em investimentos em pesquisa e tecnologia por parte da indústria farmacêutica e de startups, maior foco em atenção básica e com os profissionais desenvolvendo novas competências.

“A dinâmica competitiva se intensificou em vários elos da cadeia”, destaca Luiza Mattos, sócia da Bain & Company. Ela cita como exemplos a entrada de players mais apoiados em tecnologia, como Alice e Qsaúde, no segmento de planos, e a Amparo, nas clínicas primárias. Ao mesmo tempo, diz, há maior velocidade em movimentos de consolidação, nos quais os players ganham escala nos próprios elos em que atuam ou se expandem ao longo da cadeia. “Como a Rede D’Or, a fusão da Hapvida e do Grupo NotreDame Intermédica (GNDI) e a integração entre as empresas do grupo Dasa”, observa ela.

Além dos já conhecidos movimentos de operadoras adquirindo outras similares ou hospitais para aumentar sua verticalização e de hospitais comprando novas unidades, o segmento de medicina diagnóstica mostrou maior apetite por consolidação, entrando em outros nichos da saúde. “A ideia principal é ganhar relevância para que o setor não fique muito díspar diante da pressão gerada pelas operadoras”, ressalta Leandro Figueira, vice-presidente do conselho de administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

Estudo da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) e da Bain & Company, lançado em abril, lista algumas das mudanças que vêm ocorrendo no setor da saúde, tanto para dar conta da pandemia quanto para o pós-pandemia. Como o novo perfil de consumo das pessoas, que ganharam mais voz e responsabilidade de escolha sobre como, quando e onde receber atendimento; uma assistência mais humana e centrada no paciente com um cuidado integrado; a consolidação da telemedicina; e a ampliação do uso de dados e da automação. O levantamento também ressalta que os profissionais de saúde deverão ser capazes de lidar com um ambiente cada vez mais complexo, integrado e tecnológico, interagindo com novas plataformas. E não só com a telessaúde, mas também com ferramentas digitais que economizam tempo e aumentam a qualidade da gestão de prontuários médicos eletrônicos, cada vez mais dominados por inteligência artificial.

A telessaúde, observa, é o futuro do qual o Brasil não tem como escapar, se quiser ter competência em saúde. “Cabe agora regular esta ferramenta, de modo que haja responsabilidade do ponto de vista de proteção dos dados, que haja respeito ao papel indispensável do médico, mas que não haja preconceito na sua utilização”, afirma.

O esforço das empresas em se adaptar a novos tempos tem como pano de fundo números colossais: segundo a última conta-satélite da saúde disponível, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no fim de 2019, as despesas com o consumo final de bens e serviços de saúde somaram, em 2017, R$ 608,3 bilhões, o equivalente a 9,2% do PIB. A maior parte – R$ 354,6 bilhões (5,4% do PIB) – são gastos privados: despesas de famílias e instituições sem fins de lucro a serviço das famílias. O restante coube ao governo. Para Renato Casarotti, presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), o mercado de saúde suplementar, com 48,1 milhões de usuários, tende a se beneficiar da onda de fusões e aquisições. “Com esse processo, as operadoras ganham escala e eficiência, reduzem as despesas administrativas e os riscos e aumentam a base de beneficiários”, destaca.

A diretora da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), Vera Valente, ressalta que é importante estimular a concorrência, ampliando a oferta de produtos e serviços para o beneficiário e reduzir custos. Ela acredita que o aumento do número de empreendedores, a diminuição das contratações com carteira assinada, as novas modalidades de relação entre empresas e indivíduos e uma maior estrição orçamentária para empresas e famílias vão forjar opções mais adequadas a esta nova realidade.

A telessaúde, destaca a executiva, é um caso emblemático: aprovada emergencialmente para funcionar na pandemia, o atendimento remoto desafogou hospitais e garantiu atendimento aos que estavam em casa. No entanto, ela lembra
que há modelos no mercado com muitas fragilidades. “É o caso da assinatura de telemedicina. Quem a contrata tem acesso à consulta, mas depois continua sem acesso ambulatorial, sem direito à internação ou até mesmo a exames
laboratoriais”, afirma. A velocidade de algumas transformações setoriais vem gerando preocupação em estudiosos da saúde. Lígia Bahia, professora de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), faz críticas ao uso da telemedicina como forma de elevar a produtividade. “Uma tecnologia necessita aceitação de médicos e clientes
para ser incorporada. Os médicos especialistas concordaram passivamente em ter suas remunerações reduzidas, os clínicos se conformarão com coconsultas ou laudos de colegas desconhecidos? Os clientes de planos se contentarão com a emissão de opiniões sobre a não necessidade de realização de procedimentos?”, questiona ela.

Outro ponto de inquietação, diz Lígia, são as fusões e aquisições, que podem gerar uma oligopolização com repercussões sobre o uso de serviços e preços. “Já temos desdobramentos negativos desse processo de concentração em termos da comercialização de planos que restringem acesso e não permitem nenhuma liberdade de escolha”, afirma a professora. De qualquer forma, tecnologias como big data, inteligência artificial, realidade virtual, internet das coisas, telemedicina e biossensores parecem um caminho sem volta. É a avaliação de Alberto Lott, especialista em saúde da consultoria Falconi. Segundo ele, abordagens direcionadas por dados estão criando valor na cadeia de suprimentos e na prevenção, potencializando a atuação na atenção primária de saúde e a gestão de saúde populacional. Ele frisa que há também esse novo consumidor, cada mais vez interessado em facilidade de acesso, serviço personalizado e controle da sua jornada.

“Isso facilitou o surgimento de empresas que procuram atender tais expectativas ao mesmo tempo que as organizações tradicionais correm atrás de incorporar soluções e tecnologias ao seu modelo de negócio e em suas ofertas”, afirma Lott. Para ele, fusões e aquisições seguem em alta e deve ganhar velocidade nas capitais e cidades de médio porte, impactando todos os elos da cadeia – hospitais, operadoras de saúde, medicina diagnóstica e clínicas especializadas, com fundos de investimento desempenhando papel importante nessas empreitadas. A pandemia deu tração a várias iniciativas que já ocorriam no mercado de saúde, que teve de lidar com um aumento repentino de atendimentos, exames e internações, além de tratamentos de sequelas da covid-19.

Novas formas de remuneração aos prestadores de serviço, baseadas em desfecho clínico, são um exemplo, como também reforço nas vendas de produtos específicos, voltados para pequenas e médias empresas, além da dedicação maior da indústria farmacêutica e de startups à pesquisa e desenvolvimento de produtos e soluções inovadoras, muitas voltadas para o enfrentamento do vírus. O Distrito, empresa de inovação aberta com parcerias diversas, incluindo o Hospital das Clínicas, revela em levantamento recente que, em maio, havia 714 healthtechs, sendo que a maior parte – 200 delas – se dedica à gestão de atestados, laudos e prescrições. Em seguida vêm as que trabalham com acesso à saúde (113), depois aparecem 89 que atuam na telemedicina. As demais focam em relacionamento com paciente, fitness e bem-estar, engajamento do paciente, medical devices, P&D, inteligência artificial e big data, órteses e próteses, rede de clínicas, setor farmacêutico, dispositivos médicos e de diagnósticos.

Algumas poucas focam em infraestrutura e produtos derivados de cannabis. Pesquisa da consultoria KPMG sobre padrões de retomada de diversos setores da economia brasileira, um ano depois do início da pandemia, revela que as tendências na saúde são o desenvolvimento de tecnologias que popularizem os canais digitais, a aceleração de outros modelos de negócios, com novas fontes de receita e maior proximidade com os pacientes, a otimização do parque instalado e esforço por maior eficiência operacional-financeira e ainda alianças estratégicas e consolidação de grandes redes.

O trabalho apontou ainda novos gargalos no setor: potencial redução dos beneficiários da saúde suplementar em consequência do agravamento da crise econômica, a migração de usuários para a rede pública e a postergação de tratamentos eletivos. A atenção básica crescerá. “O setor vai deixar de ser hospitalocêntrico, mas não a curto prazo”, salienta Leonardo Giusti, sócio-líder de infraestrutura, governo e saúde da KPMG.

Isso deve ocorrer, acrescenta o executivo, a médio e longo prazos a partir de mudanças na estrutura atual de prestação de serviços realizada, incluindo capacitação médica para atendimentos mais generalistas, em que o foco será no cuidado fora do hospital, com acesso a tratamentos especializados somente quando necessário.

Giusti acrescenta que movimentos de consolidação podem resultar em concentração do mercado, principalmente em regiões menores, mas, por outro lado, ao gerarem maior sinergia – verticalização e uso de tecnologia, por exemplo –,
podem levar a ganhos de eficiência e melhoria na qualidade de serviços para os clientes. De acordo com ele, toda a cadeia da saúde, incluindo fornecedores, distribuidores, prestadores de serviços e fornecedores de tecnologia, passa por essa tendência de verticalização e expansão de serviços adjacentes. “Já na indústria farmacêutica, vemos como tendência medicamentos com registros mais simplificados, relações mais estreitas entre fabricantes de medicamentos e pacientes e terapias combinadas”, diz.

Se, de um lado, as negociações setoriais mexem com a oferta de serviços, gerando alguma controvérsia sobre a concentração do mercado, por outro há praticamente um consenso a respeito de uma saúde cada vez mais fundamentada em dados e em tecnologia. “Em um futuro próximo da saúde, os investimentos estarão na prevenção, em vez de tratamento, e conjuntos de dados interoperáveis e algoritmos preditivos serão usados para conduzir microintervenções que ajudarão a manter as pessoas mais saudáveis”, frisa Luís Fernando Vieira Joaquim, sócio-líder da indústria de Life Sciences & Health Care da Deloitte.


Ele destaca que o uso de tecnologia tem cada vez mais força e mais apelo do novo público consumidor de saúde. Especialmente “werables” (dispositivos tecnológicos “vestíveis”), sensores domésticos “sempre ligados”, que fornecem dados como qualidade do sono, tendem a ser mais utilizados em conjunto para gerar insights e intervenções personalizadas e voltadas principalmente para o aspecto de promoção e prevenção em saúde. A avaliação da Deloitte sobre a área da saúde é de que os consumidores esperam que os cuidados estejam disponíveis quando e como for mais conveniente e seguro para eles. Isso inclui cuidados virtuais (visitas virtuais, monitoramento remoto), entrega de prescrição em casa, diagnóstico digital e suporte a decisões, aplicativos de autoatendimento para educação, modificação de comportamento e apoio social, entre outros. Com tantas mudanças, cada vez mais o modelo de remuneração baseado em pagamento por procedimento, o chamado “fee-for-service” vai cedendo espaço para a remuneração por desfecho clínico.

Fonte: Valor Econômico