Plano de saúde com hospitais ganha mercado

As operadoras de planos de saúde verticalizadas Hapvida e NotreDame Intermédica levantaram no mercado R$ 16,2 bilhões desde a oferta inicial de ações (IPO), ambas realizadas em abril de 2018. Nesse período, tanto Hapvida quanto Intermédica fizeram três captações com forte demanda de investidores e boa parte dos recursos levantados está sendo destinada a aquisições. Esse interesse do mercado financeiro pelas operadoras verticalizadas – há alguns anos consideradas o “patinho feio” do setor – ocorre porque o controle de custos tornou-se crucial nessa área. A “inflação médica” é cerca de quatro vezes superior ao IPCA. Não à toa, operadoras sem rede própria de hospitais vêm tentando adotar novos modelos de remuneração.

“As operadoras verticalizadas têm um alinhamento de interesses. Isso é chave num momento de inflação médica alta. Com isso, essas operadoras tendem a ganhar participação de mercado”, disse Bruno Giardino, analista de investimento. Os primeiros reflexos desse cenário já começam a surgir. As seguradoras de saúde, que não podem ter rede própria, estão criando modalidades de planos com uma rede menor de prestadores de serviços, o que facilita o controle dos custos. Bradesco Saúde e SulAmérica lançaram modalidades de seguro saúde em que a maior parte dos hospitais, clínicas oncológicas e laboratórios de medicina diagnóstica credenciados pertence à Rede D’Or, dona de 45 hospitais. Segundo especialistas do setor, a consolidação das verticalizadas que, estão entrando fortemente no interior, pode impactar as Unimeds, que dominam as cidades menores. Muitas cooperativas médicas, em especial, aquelas de pequeno porte carecem de uma gestão profissionalizada. Entre seus desafios, está o de implementar modelos de remuneração baseados em performance e não por volume, com acontece hoje.

O desafio é grande, uma vez que as Unimeds há anos operam gerando o maior número possível de procedimentos médicos dentro do sistema, a fim de beneficiar os próprios cooperados que, ao final de cada ano, partilham os ganhos. De acordo com a Unimed do Brasil, representante das cooperativas médicas, as Unimeds, ao enfrentar uma concorrência acirrada com as operadoras verticalizadas, poderão criar planos de saúde com uma rede própria.

“Estamos acompanhando de perto as verticalizadas. Nas cidades onde a concorrência for muito grande é possível a criação de planos específicos e construção de hospitais”, disse Orestes Pullin, presidente da Unimed do Brasil, que reúne as 344 cooperativas médicas do país. Pullin diz ainda que as Unimeds estão investindo em clínicas de atenção primária a fim de evitar idas desnecessárias ao pronto-socorro e, consequentemente, controlar a taxa de sinistralidade. Cerca de 300 mil clientes de Unimeds já são atendidos, inicialmente, nessas clínicas e só, posteriormente, encaminhados ao médico especialista, caso seja preciso.

Hapvida e NotreDame Intermédica adquiriram operadoras com presença no interior de São Paulo, Paraná, Centro-Oeste, regiões com forte atuação das Unimeds. “O mercado de planos de saúde ainda é muito pulverizado, com mais de 700 operadoras. Há espaço para mais consolidação. A tendência é de que haja poucos grupos com um grande volume de usuários, cada. Esse é um negócio de escala”, disse Fred Mendes, analista do Bradesco BBI. Os investidores estão de olho nesse processo de consolidação e também na capacidade das companhias de integrar os ativos comprados. As ações da Intermédica valorizaram 166% e das Hapvida, 80%, desde seus IPOs. “A Intermédica iniciou o processo de aquisições antes e já entregou resultados, muitas vezes acima do esperado. A Hapvida começou comprar os ativos mais recentemente”, explicou o analista do Bradesco BBI.

Com a expansão das verticalizadas, as demais operadoras aumentaram a pressão sobre os hospitais para o uso de modelos de remuneração, principalmente, aqueles baseados em performance. “É impraticável continuar com o formato de conta aberta, mas esse processo de mudança, de qual é o melhor modelo, gera conflitos como estamos vendo no setor. Acredito que o ideal seria os hospitais publicarem seus desfechos clínicos [resultados de procedimentos médicos]. Com isso, poderíamos comparar a performance de cada hospital e mensurar a remuneração merecida”, diz Maurício Ceschin, expresidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Na avaliação de Ceschin esse seria um caminho também para avaliar a qualidade das operadoras com rede própria que, normalmente, são alvo desse tipo de questionamento. O analista do Bradesco BBI pontua que o fato de Hapvida e Intermédica serem companhias abertas contribui para que elas mantenham determinado padrão de qualidade a fim de não serem punidas pela ANS. A relação entre operadoras e prestadores de serviço que parecia amena, inclusive nas discussões sobre modelos de pagamento, deu um passo para trás neste ano com os conflitos entre Amil e Rede D’Or e o vazamento de uma proposta de projeto de lei que retira muitos direitos dos consumidores e privilegia o desempenho financeiros das operadoras que, segundo fontes, foi capitaneada pelas próprias operadoras.

Em abril, a Amil descredenciou 17 hospitais da Rede D’Or que discordou das condições impostas pela operadora com mais de 3 milhões de usuários. A Amil argumentou que busca preços menores junto aos prestadores para atingir sua meta global é equalizar a inflação médica ao IPCA até 2025. No entanto, as operadoras se posicionaram contra a nova metodologia de cálculo da ANS para reajuste do convênio individual que leva em consideração, entre outros indicadores, o IPCA. Neste ano, o reajuste do plano individual ficou em 7,35%, o menor desde 2009.

Fonte: Valor Econômico