Fundos de pensão assumem risco em crédito a empresas

Greg Peters, da PGIM: proliferação de firmas abrindo com pouca capacidade

Desesperados para aumentar retornos, alguns dos mais conservadores investidores do mundo têm assumido riscos mais elevados ao imitar bancos e emprestar diretamente para empresas.

Nos últimos anos, houve um salto nos investimentos de fundos de pensão e seguradoras do ramo de vida em gestoras especializadas no crédito a empresas de médio porte e que não têm acesso aos bancos, que se tornaram mais avessos ao risco pós­-crise financeira. Porém, agora, a enxurrada de recursos está pressionando os retornos para baixo, levando esses fundos a desenhar produtos mais complexos e arriscados, ao mesmo tempo em que aumentam a alavancagem.

Por causa das taxas de juros ultrarreduzidas e de outros estímulos monetários, que derrubaram os “yields” em diversos mercados, fundos de pensão e seguradoras têm enfrentado dificuldades para financiar seus passivos de longo prazo. Isso os estimulou a buscar ativos mais arriscados, como imóveis, private equity e, agora, empréstimos diretos a empresas.

Essa tomada de risco pode ter efeitos negativos para investidores para os quais obter retornos estáveis é particularmente importante. Também pode ser problemático para as empresas e para o mercado em geral, se os calotes começarem a aumentar e esses investidores se retirarem repentinamente. “É preocupante”, disse Niels Bodenheim, diretor de mercados privados da consultoria Bfinance. “Um fundo de pensão não está sempre consciente da diferença” entre investimentos seguros em empréstimos diretos e outros mais arriscados”, afirmou.

No ano passado, gestoras de recursos captaram US$ 25 bilhões de investidores globais para empréstimos diretos, segundo a provedora de dados Preqin. Uma década atrás, esse volume era de US$ 2 bilhões. Alguns analistas esperam um crescimento em velocidade ainda maior.

Há tanto dinheiro entrando na área que as gestoras nem sempre podem investi­-lo. Em maio, havia US$ 62 bilhões sem destino nesses fundos, segundo a Preqin, enquanto uma década atrás havia US$ 12 bilhões. Uma pesquisa recente da Bfinance detectou que gestores de dívida sênior privada não alavancada esperam um retorno de mais de 8%, mas têm obtido entre 5% e 6%. Embora os números de anos anteriores não sejam diretamente comparáveis, há uma “notável compressão de spreads desde 2012”, afirmou o relatório.

Emprestar diretamente para empresas sempre vai acarretar mais riscos que as típicas carteiras de bônus, que normalmente podem ser negociados no mercado e são mais fáceis de ser vendidos. E os riscos podem aumentar.

Para incrementar o retorno, os fundos elevam a alavancagem e adicionando complexidade a investimentos classificados como seguros. Dívida sênior, a primeira a ser paga em caso de insolvência, tem cada vez mais sido empacotada em uma única tranche com dívidas mais juniores, segundo pesquisas e registros de investidores.

Investidores afirmam que, como novatos nesse mercado, fundos de pensão e seguradoras, especialmente na Europa, não estão acostumados a lidar com essas estruturas. Além disso, um mercado que era tradicionalmente dominado por uma dúzia de grandes emprestadores, agora se tornou saturado por fundos iniciantes.

Em 2008, havia 16 fundos fazendo empréstimos diretos. Em 2016, havia 55, segundo
dados da Preqin. Os fundos maiores dizem que esses competidores menores são os que representam riscos porque não têm tamanho para diversificar seus empréstimos e abordar os tomadores da melhor forma.

“Estamos calçando os sapatos dos bancos e para isso você precisa de escala”, afirmou Max Mitchell, chefe de empréstimos diretos do Intermediate Capital Group, que administra € 11 bilhões em ativos de investimentos corporativos. Alguns fundos menores, porém, dizem que seu tamanho é compatível com o das empresas para as quais emprestam. Isso evita o mercado mais concorrido de companhias um pouco maiores, que se tornou mais disputado, complexo e alavancado, disse Alastair Brown, chefe de empréstimos diretos na Shard Credit Partners, uma pequena empresa com sede em Londres.

Um conjunto diversificado de empréstimos para companhias menores ainda pode gerar retorno de 9% acima das taxas de juros livres de riscos, em comparação com os 5% agora entregues por empresas maiores, afirmou. Analistas dizem também que, apesar do dinheiro novo, ainda há muitas oportunidades no crédito direto, porque há demanda de empresas que os bancos não atendem e são pequenas demais para acessar os mercados de capitais.

Investidores dizem que os riscos podem facilmente ser diversificados nos diversos países europeus, um mercado que começou a se aproximar do tamanho do americano nos últimos anos. Um teste crucial para o mercado virá quando a inadimplência começar a subir, já que um calote é muito mais danoso para um fundo que para um banco. Em abril, as cotas do Ranger Direct Lending Fund, de Londres, caíram 22%. O Ranger é investidor do Princeton Alternative Income Fund, e este, por sua vez, ofereceu créditos à empresa de empréstimos on­-line Argon Credit, que quebrou.

Bill Kassul, um sócio do Ranger, afirmou que preservar o capital mesmo quando os problemas emergem vai, no fim das contas, tranquilizar os investidores a respeito dos empréstimos diretos. Porém, Greg Peters, gestor de portfólio de crédito da PGIM, disse estar preocupado com algumas empresas fazendo empréstimos diretos como “uma aposta de curto prazo”.

“Há uma proliferação de novas firmas abrindo com pouca capacidade e nenhum histórico e elas estão captando dinheiro”, disse. “Se há uma história a ser escrita para a próxima recessão, ela será sobre crédito privado.”

Fonte: Valor Econômico