Fundos de pensão enfrentam dilema cambial

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Fundos de pensão que começaram a investir recentemente no exterior enfrentam seu primeiro dilema cambial. Num momento em que o dólar chegou a romper a barreira dos R$ 4,00, o desafio dos pioneiros na diversificação fora do Brasil é escolher a melhor estratégia para preservar ganhos ou mesmo realizar o lucro que a valorização da moeda americana trouxe para os ativos alocados fora do país. Entre as opções à mão, fazer hedge cambial é uma das formas de travar a rentabilidade conquistada com a esticada das cotações. Perto do tamanho da indústria de fundos de pensão, que reúne patrimônio na casa dos R$ 700 bilhões, o volume aplicado no exterior ainda é inexpressivo, estimado em US$ 1 bilhão.

No entanto, a cifra vem se expandindo rapidamente desde o ano passado, quando as fundações passaram a trilhar esse caminho. Com R$ 400 milhões aplicados em ativos fora do país, a Funcesp estuda se vale fazer hedge da sua posição. Segundo Jorge Simino, diretor de investimentos e patrimônio, tudo vai depender da evolução do cenário que vem sendo revisto diariamente. Na avaliação mais atual dos técnicos da fundação, os fundamentos econômicos ainda se mostram relativamente frágeis, embora Banco Central e Tesouro venham se posicionado de maneira mais incisiva para dar parâmetros ao mercado. “Travar a taxa de câmbio não é uma situação trivial. É preciso construir primeiro a convicção para estabelecer a posição em ativo”, afirma Simino.

André Leite, sócio da gestora de patrimônio Tag Investimentos, diz que faz sentido migrar para fundos globais que ofereçam hedge por meio de contratos de dólar futuro, pois a contrapartida é a taxa de juros em reais. “Além dessa rentabilidade dos ativos externos, se o dólar cair, o investidor terá a taxa de juros interna.” Isso se aplica no caso de uma perspectiva de queda do dólar ante o real. No entanto, a opção pelo hedge também envolve riscos e custos. Ao assumir uma posição “vendida” em dólar, o investidor aposta na queda da moeda americana. Se a divisa subir mais do que a variação do CDI, que é a taxa de juros em reais, ele terá uma perda com essa posição. Foi o que ocorreu nos últimos três meses. Enquanto o dólar subiu 27,56% o CDI aumentou 3,43%.

Por esse motivo, consultores de investimentos para as fundações divergem sobre a necessidade dessa proteção. Por um lado, defendem que as entidades, apesar do perfil de longo prazo, tenham portas de entrada e saída para os investimentos também no horizonte mais curto. Outros argumentam que, dado o baixo volume aplicado em relação ao total de recursos de cada plano, o hedge seria dispensável e oscilações mais fortes seriam diluídas ao longo do tempo. O fato é que quem se arriscou até agora sem hedge ganhou duplamente. Nos prêmios obtidos em renda variável nas bolsas de Estados Unidos e Europa e na valorização do dólar. “Quando essas instituições começaram a aplicar fora sabiam que a relação entre o dólar e o real estava desalinhada e tiveram ganhos em reais expressivos”, disse Leite.

A Petros, por decisão de seu conselho deliberativo, não fará nenhum investimento no exterior. A posição nesses ativos que a fundação possuía somava R$ 300 milhões e foi totalmente desfeita nos últimos meses, já sob comando do presidente Henrique Jäger. “Analisamos a carteira e vimos que ela não performava como esperado no ativo, mas ela performava no câmbio. Fizemos uma discussão interna sobre se para nós valeria à pena correr o risco cambial. E avaliamos que não”, disse Jäger em entrevista ao Valor nesta semana. Ele afirma que o conselho deliberativo da Petros entende que o fundo não deve investir no exterior. “Nós já investimos em ativos que investem no exterior. Como a Vale, participação que não vamos nos desfazer, nem podemos. Apesar da decisão, se em algum momento a diretoria entender que vale à pena correr o risco cambial ou que valha a alguma operação externa, esse posicionamento poderá ser reavaliado”.

Marcelo Pimentel Mello, vice-­presidente da SulAmérica Investimentos, acredita que após uma forte migração de investimentos para a renda fixa neste ano, os fundos de pensão, a partir de 2016, voltarão a ter mais apetite pelo risco. O limite para a aplicação dos fundos de pensão em investimentos lá fora é de 10%. “Não vai atingir todo esse percentual no curto prazo, mas acho possível pensarmos em algo como entre 4% e 6% em cinco anos”, disse.

Luiz Mario de Farias, líder de investimentos da Towers Watson no Brasil, recomenda que as entidades de previdência complementar façam o hedge cambial, migrando para fundos que já contem com tal proteção. Segundo ele, a forte valorização da moeda americana ante a brasileira gera dúvidas sobre qual será o nível de acomodação no futuro. Por outro lado, com o hedge, o investidor não se beneficiaria de uma deterioração adicional do real.

Guilherme Benites, sócio da Aditus Consultoria Financeira, lembra que a oferta desses veículos com hedge cambial é restrita. Além disso, diz, o instrumento de proteção “roubaria” rentabilidade das aplicações. Para ele, seria mais vantajoso para os fundos de pensão realizar os ganhos obtidos até o momento e continuar com o principal aplicado no fundo em que já se encontra.

A Clarita oferece fundos de investimentos sem hedge. Para Marcos Machado, responsável pela área de investidores institucionais, não é preciso estabelecer essa proteção cambial. Argumenta que o recuo da moeda americana à casa dos R$ 3,00 significaria que a situação doméstica melhorou e, com isso, gerou maior retorno dos ativos internos dos fundos de pensão. “As aplicações em renda fixa e variável estariam trazendo muitos rendimentos que, se houvesse alguma perda com o câmbio, seria facilmente diluída.” Para ele, vale a pena ficar sem hedge no longo prazo.