Previdência compra mais título público

coins_on_chartOs fundos de previdência aberta e fechada têm reforçado a demanda por títulos públicos federais neste ano. A taxa elevada paga pelo Tesouro Nacional nos papéis mais longos é o principal fator de atratividade para as entidades, que veem oportunidade de garantir a remuneração acima do necessário para honrar seus compromissos com os participantes.

Nas compras, as entidades têm usado tanto recursos novos, das contribuições mensais, como da realocação de suas carteiras. O movimento conservador em direção à renda fixa vem ocorrendo desde 2013, com o início do aperto monetário no Brasil. Mas foi neste ano que o ritmo se intensificou. Entre janeiro e julho de 2014, o estoque de papéis em posse das entidades de previdência, incluindo regimes de servidores públicos, tinha crescido 5,2%, a R$ 362,75 bilhões. Já nos primeiros sete meses deste ano, o volume aumentou 32,88%, a R$ 489,03 bilhões ­ nível recorde e que já representa 19,8% do total da dívida pública federal interna com o mercado. Há dois anos, a porção nas mãos dos fundos de previdência era de R$ 327,98 bilhões.

Apenas em 2015, a Funcef (fundo de pensão dos funcionários da Caixa) comprou R$ 1,5 bilhão em títulos. “A partir do momento em que começamos a ver taxas acima de 6,5% mais o IPCA, o que é mais alto do que nossa meta atuarial de 5,6%, reforçamos as compras”, disse o diretor de investimento da entidade, Maurício Marcellini. Ele exemplifica que, no leilão há duas semanas, a remuneração da Nota do Tesouro Nacional série B (NTN­B) com vencimento em 2035 chegou a 7,1% ao ano. Para ele, o fato de manter o papel na carteira até o vencimento é positivo porque a aplicação não sofre impacto de novas altas de taxas nas novas ofertas ou movimento mais volátil no secundário. “Já para os títulos marcados a mercado blindamos a carteira com papéis indexados à Selic”, afirma. As aplicações em renda fixa da Funcef representam 48,5% da carteira nos planos de Benefício Definido (BD) que já estão saldados e 58,7% nos planos novos de Contribuição Variável (CV). Este último recebe contribuição mensal dos participantes de R$ 150 milhões, que estão sendo direcionados para os títulos públicos.

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Em agosto, o Valia (fundo de pensão dos trabalhadores da Vale) intensificou suas compras de papéis vinculados à inflação. Adquiriu R$ 200 milhões para a carteira de seus dois planos. “A NTN­B traz uma proteção natural da inflação e, nos níveis de taxas de juros atuais, é uma boa oportunidade”, diz Maurício Wanderley, diretor de investimento da fundação. As aquisições são feitas, prioritariamente, nas emissões primárias. O mundo passa por um período turbulento, diz o diretor do Valia, citando a inquietação sobre a mudança de rumo da política monetária nos Estados Unidos e a instabilidade no mercado de ações da China. “Tudo isso acaba trazendo preocupação para os investidores, mas, às vezes, o mercado exagera. E é neste momento, quando o preço dos ativos descola dos fundamentos econômicos, que identificamos a oportunidade de compra.”

Para Wanderley, o momento de volatilidade atual não se distingue muito do que ocorreu na crise de 2008, quando os fundos também conseguiram fazer dos títulos públicos de boa remuneração seu porto seguro. À época, a política monetária também estava mais restritiva. “Em 2008, as taxas ‘abriram’ [aumentaram]. Ao contrário de outros investidores, os fundos de pensão têm tranquilidade para analisar a situação, manter a calma em momentos delicados e buscar as melhores oportunidades.”

Na contramão dessa “corrida”, a Previ (fundo de pensão dos empregados do Banco do Brasil) não realizou um volume significativo de compras de títulos públicos no último mês. No entanto, segundo dados fornecidos pela entidade, com R$ 61 bilhões, o segmento de renda fixa representa cerca de 36,5% dos ativos totais. O fundo de previdência vem fazendo operações de troca de títulos em leilões regulares do Tesouro Nacional visando alongar a carteira e aproveitar a recente elevação de taxas.

Na semana passada, o Tesouro anunciou uma alteração nos limites do estoque da dívida pública federal definidos no Plano Anual de Financiamento (PAF), subindo do intervalo de R$ 2,45 trilhões a R$ 2,60 trilhões para R$ 2,65 trilhões a R$ 2,80 trilhões. Segundo o coordenador ­geral de operações da dívida pública, José Franco, a decisão foi tomada em função da forte demanda pelos títulos.