Saúde suplementar revisa processos

Lopes, da SulAmérica: país tem índices alarmantes de casos ligado à violência
Lopes, da Sul América: país tem índices alarmantes de casos ligado à violência

O mercado de saúde complementar terá que passar por mudanças de gestão se quiser continuar a crescer com rentabilidade e de forma mais eficiente. O setor que vinha se mostrando resiliente em relação à crise econômica e avançava 4% ao ano nos últimos cinco anos até o final de 2013, diminuiu o ritmo. No ano passado, o número total de novas adesões avançou 2,7%, mas foi o resultado do primeiro trimestre deste ano que fez o pisca alerta acender. Levantamento do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) mostra que o total de beneficiários se manteve em 50,8 milhões em março, mesmo número de dezembro de 2014. O que pode ser um sinal de que os efeitos da crise econômica estejam chegando também às negociações do setor.

Em um período de 12 meses, a variação também mostra desaceleração no crescimento, que foi de 2,1%, correspondendo a um acréscimo de 1 milhão de vínculos no período. Diferentes fatores podem afetar as vendas de novos planos. “Muitos economistas falam em encolhimento do PIB e aumento do desemprego. Se confirmados, esses fatores podem mexer com os planos empresariais”, avalia Luiz Augusto Carneiro, superintendente-­executivo do IESS e professor de ciências atuariais na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA­USP). Ele lembra que a contratação de planos de saúde está relacionada ao mercado de trabalho e ao nível de renda da população. Um dos pontos de preocupação do setor, a inflação médica tem levado seus executivos a uma mudança de gestão em busca de maior eficiência e melhora das margens de retorno.

A rentabilidade hoje gira em torno de 2%, o que é considerado muito baixo. Dados da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), que representa as 26 maiores operadoras de planos e seguros no país, com 29,2 milhões de beneficiários, mostram que os custos dessas operações aumentam em percentuais mais elevados do que as receitas. As despesas assistenciais avançaram 16% totalizando R$ 110,5 bilhões nos últimos 12 meses terminados em março de 2015. No mesmo período, o total de receitas cresceu 14,7% e somaram R$ 134,4 bilhões. “Um ponto de atenção é que a inflação médica hospitalar, que está em torno de 17% ao ano, cresce muito acima do IPCA, em torno de 8,5%”, afirma Márcio Coriolano, presidente da FenaSaúde e do Bradesco Saúde.

Estudos do IESS mostram que a inflação médica acima da inflação oficial se repete em diversos países da Europa, Ásia e nos EUA. Usando como ano base 2012, enquanto a variação dos custos médico-­hospitalares no Brasil esteve 9,6% acima da inflação, nos EUA ficou em 9,7%, no Reino Unido em 7% e na Indonésia em 9,7%. Isso ocorreu principalmente devido a custos com equipamentos e novas tecnologia. No Brasil, um dos itens que mais pesam na conta é o modelo de remuneração dos hospitais por meio de conta aberta, enquanto que nos países desenvolvidos é por pacotes e grupos de diagnósticos. “O Brasil cria distorções que precisam mudar. Outro ponto é que falta transparência em toda a cadeia do setor de saúde privada, o que impede melhores negociações. Só as operadoras e seguradoras publicam balanço”, alerta Carneiro. Maior seguradora de saúde do país, com 12% de participação de mercado, o Bradesco investe em programas e tecnologias que possam melhorar a gestão de sua operação e a orientação de procedimentos, com maior exatidão.

O programa ‘Meu Doutor’, por exemplo, permite por meio de plataforma web que o segurado verifique a agenda de médicos e a marcação on­line de consultas para o mesmo dia ou em menos de 24 horas. “Outro programa é o Segunda Opinião, que em casos de procedimentos mais complexo, colhe uma segunda avaliação de um clínico geral, para validar ou reorientar o tratamento “, conta Coriolano. Bem mais acelerado do que o resto do mercado, o Bradesco Saúde, que só atua com planos corporativos, fechou o primeiro trimestre com crescimento de 4,8% no total de 4,5 milhões vidas e faturamento de R$ 4,1 bilhões, 24,1% mais do que em igual período do ano passado. A seguradora administra R$ 120 bilhões em prêmios. O Brasil possui outra particularidade que preocupa as seguradoras. Uma maior incidência de doenças infectocontagiosas do que em países desenvolvidos, como dengue, malária e tuberculose. “Outros índices alarmantes são os de casos de tratamento por violência, traumas por acidentes e doenças crônicas, o que pressiona ainda mais os custos”, avalia Maurício Lopes, vice­presidente de saúde e odontologia da SulAmérica Seguros, que possui 2,7 milhões de membros e fechou o primeiro trimestre com R$ 2,59 bilhões em prêmios, variação de 15,2% em relação a igual período de 2014.

Para lidar com essa situação e com uma sinistralidade na casa dos 84,4%, a empresa adotou programa de aconselhamento on­line, com orientações sobre qualidade de vida por meio de um portal, que já possui 12 mil participantes. Como seus concorrentes, a Sul América aposta no crescimento mais acelerado da carteira de pequenas e médias empresas este ano. Enquanto o nicho PME avançou 13,7% no total de membros e 26,4% em receitas nos três primeiros meses de 2015 em comparação ao mesmo período do ano passado, a de grandes corporações encolheu 0,9% em participantes e cresceu 13,9% em receita. “A formalização das empresas menores tem permitido esse avanço maior no segmento”, diz Lopes.

Mais agressiva do que os concorrentes nas aquisições que vem fazendo, a Amil, que desde 2012 pertence a americana UnitedHealth, pensa agora em arrumar a casa. “O apetite principal hoje é pelo aperfeiçoamento do modelo. Mas a concentração de mercado é uma tendência”, afirma Antonio Jorge Kropf, diretor Institucional da operadora, que fechou 2014 com receita de R$ 13,37 bilhões, 25% maior em relação a 2013, porém com prejuízo líquido de R$ 259 milhões, devido ao desembolso de R$ 1 bilhão com cinco aquisições e obras, além da inflação médica. Outro ponto de atenção é o aumento da longevidade que tem participação crescente em sua carteira. Em 2013, as pessoas com mais de 60 anos representavam 11,9% do total. Hoje, 17,3%. “O custo deste grupo subiu 88% no período. A receita, 29%. O desafio é enorme. Agora, a grande virtude é que as coisas só mudam com dor”. Kropf defende a reorganização do setor em ações estruturantes com maior uso de tecnologia da informação. “Um exemplo é a implantação do prontuário médico eletrônico. Estamos nos tornando mais eficientes”, diz.

Valor Econômico